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Desafiados a abrir nossos olhos e dar testemunho

2005-11-16

(*) Walter Kasper

Reflexões sobre o tema da 9a Assembléia do CMI:

Deus, em tua graça, transforma o mundo

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O Cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para Promoção da Unidade Cristã, contribui, no artigo a seguir, com uma reflexão a partir da perspectiva da Igreja Católica Romana, sobre o tema da 9a Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas: Deus, em tua graça, transforma o mundo.

O tema da 9a Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Deus, em tua graça, transforma o mundo, é uma profunda oração de fé e esperança em Deus, que, de forma desinteressada e contínua, leva o cristão à renovação e à conversão pessoais e usa a igreja como instrumento de seu amor na transformação do mundo.

Em duas das leituras bíblicas propostas sobre o tema (Lucas, 4 e Isaias, 61), encontramos os alicerces teológicos da ação de Deus através da Igreja como o “indivisível sacramento da salvação.” [1].

O trabalho transformador de Deus é realizado através de Cristo, que, “quando for levantado da terra, atrairá todos a si mesmo” (João 12:32, Texto Grego). “Havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos (cf. Rom 6:9), infundiu nos discípulos Seu Espírito vivificador e por ele constituiu a igreja, Seu Corpo, como universal sacramento da salvação”. [2]

No texto de Isaías, 61:1-4, que se cumpriu em Lucas, 4:16-30, fica claro que “a prometida restauração que esperamos já começou, pois, em Cristo, progride com a missão do Espírito Santo e, por ele, continua na igreja”. [3] Por meio da presença de Cristo na ação do Espírito Santo, Deus está permanentemente ativo no mundo, transformando a humanidade e todo o cosmos.

O Concílio Vaticano Segundo entende a igreja como “o universal sacramento da salvação,” [4] que, por meio da graça de Deus, tem a dupla tarefa de trabalhar pela realização de sua própria unidade integral e pela unidade da humanidade fragmentada. Dessa forma, o Concílio coloca a igreja em perspectiva ao se concentrar em sua natureza escatológica, como o povo peregrino rumo à realização final do reino de Deus, quando a raça humana, assim como toda a criação, que está intimamente relacionada aos seres humanos e através deles adquire propósito, será perfeitamente restabelecida em Cristo. [5]

O alicerce do papel da igreja no mundo é teológico e cristológico. No Velho Testamento, a intervenção de Deus na história é percebida tendo como pano de fundo Deus como criador e senhor de todas as coisas (cf. Is 40:21-26; 42, 5f). No Velho Testamento, A realização da retidão messiânica (lei de Deus) esteve sempre ligada à restauração da ordem em todo o cosmos – toda a terra habitada (oikoumene).

No Novo Testamento, especialmente com Paulo, a soberania é atribuída a Cristo, que é a cabeça da igreja (cf. Efésios, 1:18-20), e de todas as coisas (cf. Efésios, 1:22; Colossenses, 1:15-18; 2:10). Cristo, como cabeça de ambos os domínios, é o portador de um relacionamento de pacto entre Deus e os seres humanos, e entre Deus e toda a criação.

O tema da Assembléia do CMI, Deus, em tua graça, transforma o mundo, pressupõe fé e esperança em Deus, que, em Cristo, através da obra do Espírito Santo, já cumpriu a promessa. O fim dos tempos já começou, pois o alicerce da restauração de todas as coisas foi estabelecido em Cristo.

Nós não apenas oramos e esperamos que Deus transforme o mundo. Os cristãos recebem as habilidades e a sabedoria para cooperar com o trabalho de Deus de transformar o mundo. Em outras palavras, os cristãos têm o dever e a responsabilidade de estabelecer uma ordem mundial que esteja de acordo com a dádiva divina de verdade e graça, recebida em Jesus Cristo, nosso senhor. [6]

Ouvir a palavra de Deus de novas maneiras

A questão que não se pode perder de vista com relação ao tema é a seguinte: qual é o propósito de Deus na criação, o mistério da salvação e da encarnação, um propósito que encontra seu ponto culminante no mistério pascal de Cristo, que por fim é levantado para atrair a todos a si mesmo (cf. João, 12:32 )?

O Concílio Vaticano Segundo resume a resposta a essa pergunta nas seguintes palavras: “Ao ajudar o mundo e recebendo dele ao mesmo tempo muitas coisas, o único fim da Igreja é o advento do reino de Deus e o estabelecimento da salvação de todo o gênero humano. E todo o bem que o Povo de Deus pode prestar à família dos homens durante o tempo da sua peregrinação deriva do fato que a Igreja é o ‘sacramento universal da salvação’, manifestando e atuando simultaneamente o mistério do amor de Deus pelos homens.”[7]

Todavia, concretamente, como a igreja vive seu ministério pastoral à luz dos propósitos de salvação de Deus?

O ministério pastoral de Deus, da forma exposta a nós em Lucas, 4:16-30, é o modelo para o ministério pastoral de sua igreja. Assim como Jesus foi enviado pelo Pai na ação do Espírito Santo “para trazer as boas novas aos pobres, para proclamar a libertação aos cativos e restaurar a vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos e apregoar o ano aceitável do Senhor,” também a igreja é enviada para fazer o mesmo, com vistas a contribuir com a realização da retidão messiânica em situações concretas.

O tema da Assembléia do CMI desafia a todos os cristãos a escutar a palavra de Deus de novas formas, para que possam captar o que a palavra significa para suas vidas hoje. Na verdade, somos desafiados a abrir os olhos para ter certeza de que os pobres experimentem as boas novas, que os cativos sejam libertados e que os cegos de todas as categorias possam novamente enxergar.

Somos desafiados a testemunhar as obras transformadoras de Deus através do Espírito Santo no meio de nós, atualmente, como Jesus disse aos discípulos de João, “Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres está sendo pregado o Evangelho” (Mt, 11:4-5).

Sendo assim, o tema da Assembléia é uma oração e a realização do Reino de Deus em Cristo, com a igreja como instrumento, sustentada e guiada pelo Espírito Santo, por todos os séculos.

O Cardeal Walter Kasper é, como presidente do Conselho Pontifício para Promoção da Unidade Cristã, o mais importante representante ecumênico do Vaticano. Como teólogo, escreveu muitos artigos e vários livros, incluindo Liderança na igreja: Como funções tradicionais podem servir a igreja Cristã atualmente (2003). Foi membro da Comissão sobre Fé e Ordem do CMI entre 1975 e 1991.

Observações:

1 Cip., Efésios. 69, 6, Hartel III, p. 754 (PL III, 1142 B)

2 Councílio Vaticano Segundo, Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, 48.

3 Ibid.

4 Lumen Gentium, 15.

5 Cf. Efésios 1:10; Colossenses, 1:20; 2 Pedro, 3:10-13.

6 Cf. Y. Congar, Jesus Christ (New York: Herder 1966) sobre a realização da lei de Cristo sobre o mundo; e Y. Congar, Sacerdoce et Laïcat devant leurs tâche d'évangélization et de civilization (Paris: Cerf 1962), p. 357 (em Inglês: Priest and Layman; Londres: Darton, Longman and Todd, 1967).

7 Councílio Vaticano Segundo, Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno Gaudium et Spes, 45.

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9a Assembléia do CMI: Orando por um mundo transformado

A 9a assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) acontecerá em Porto Alegre, no Brasil, de 14 a 23 de fevereiro de 2006. Seu tema é uma oração: "Deus, em tua graça, transforma o mundo".

Sendo a primeira Assembléia do Conselho no século XXI, o evento reunirá até 3.000 líderes de igrejas e representantes ecumênicos de quase todas as tradições cristãs do mundo. Como tal, será um dos mais amplos encontros globais desse tipo.

As assembléias são, muitas vezes, momentos decisivos na vida do Conselho Mundial, e se espera que também esta deixe sua marca na história ecumênica. As deliberações se concentrarão em questões como o futuro do movimento ecumênico, o compromisso das igrejas com a justiça econômica, bem como seu testemunho para superar a violência, e os desafios enfrentados no meio da pluralidade religiosa.

Em Porto Alegre, membros da família ecumênica terão a oportunidade de se reunir em torno da Assembléia em um mutirão. Composta de oficinas, exposições e celebrações culturais, essa parte da programação oferecerá oportunidades para que membros do movimento ecumênico mais amplo se reúnam, reflitam e celebrem juntos.

Esta é a primeira assembléia do CMI a ser realizada na América Latina. Ela está sendo promovida pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil (CONIC), em nome de igrejas de toda a região. De 11 a 13 de fevereiro, serão realizados eventos preparatórios à assembléia para jovens e mulheres.

Website da Assembléia: www.wcc-assembly.info