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Igrejas argentinas saúdam o encontro do neto de uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio

Igrejas argentinas saúdam o encontro do neto de uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio

Estela de Carlotto. Foto: Abuelas de Plaza de Mayo - Sitio oficial

2014-08-13

English version published on: 2014-08-14

Após procurar por mais de 35 anos, as Avós da Praça de Maio, na Argentina, finalmente encontraram o neto de Estela de Carlotto, uma de suas fundadoras.

A recente descoberta põe fim à longa e dolorosa busca de Carlotto, que perdeu sua filha grávida, Laura Carlotto, abduzida e aprisionada pelos militares durante a brutal ditadura na Argentina  entre 1976 e 1983.

Os militares permitiram que a filha de Carlotto desse à luz a seu filho, mas tomaram a criança, entregaram-na a outra família (geralmente famílias de militares que não tinham filhos) e depois assassinaram Laura.

Desde a sua fundação, o objetivo das Avós da Praça de Maio é a procura das crianças que nasceram em centros de detenção clandestinos da ditadura militar argentina.

Da época da ditadura até hoje, organizações ecumênicas na região, incluindo o Conselho Munduial de Igrejas (CMI) e igrejas-membro na América Latina, acompanharam o trabalho das "mães" e "avós".

Para Carlotto, militante da defesa dos direitos humanos, a busca terminou no dia 5 de julho de 2014 quando Guido, um homem de 35 anos, músico na cidade de Olavarria, revelou-se como seu neto depois de submeter-se a um teste de DNA.

Guido decidiu fazer o teste porque ele mesmo tinha dúvidas sobre sua identidade e procedência.

Ainda que haja outras histórias de netos encontrados, este episódio recebeu especial atenção porque tocou a vida de uma líder conhecida por sua busca por justiça para outras mulheres que passaram por experiência semelhante.

A história também é importante porque mantém viva a constante necessidade da Argentina de revelar a verdade sobre os dias obscuros da ditadura.

Um povo reescrevendo sua história e a busca das igrejas por justiça

A descoberta do neto de Carlotto também foi saudada por líderes ecumênicos na Argentina que estão envolvidos com as igrejas tanto no processo de reescrever esta parte da história de seu país quanto na busca por justiça.

Em diversas ocasiões, Carlotto mencionou e valorizou o apoio incondicional que ela e outras mulheres receberam do Conselho Mundial de Igrejas (CLAI) e das igrejas-membro do CMI.

O Rev. Juan Abelardo Schvindt, da Igreja Evangélica do Rio da Prata (IERP), lembra que Carlotto frequentemente acompanhou igrejas e organizações ecumênicas em diversas atividades. "Ela foi a Genebra, no final da década de 70, para reunir-se com Charles Harper, então encarregado do programa de direitos humanos do CMI para América Latina", disse. "O clamor de Carlotto, ao lado daquele de outras líderes, sempre encontrou enorme receptividade no Conselho Mundial de Igrejas e em todo o movimento ecumênico", acrescentou Schvindt.

Em carta aberta enviada a Carlotto, em 6 de julho, o Bispo da Igreja Evangélica Metodista da Argentina (IEMA), Frank de Nully Brown, expressou alegria e gratidão de que a busca na qual as mães e avós colocam tanta dedicação e esforço valeu a pena mais uma vez.

"Agradecemos ao Deus da vida pelos netos encontrados e pedimos a Ele que continue a fortalecer as Mães e Avós da Praça de Maio na busca de seus entes queridos", escreveu.

"O CMI já estava comprometido em apoiar ativamente programas que beneficiavam chilenos que iam para Argentina fugindo do regime de Pinochet logo após 1973", relembrou o ex-funcionário do CMI, Charles Harper. "As igrejas-membro e grupos aliados em Mendoza e Buenos Aires uniram esforços com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados para proteger milhares de pessoas".

"Quando o golpe dos militares argentinos, em 1976, trouxe instabilidade e repressão tanto para comunidades de refugiados quanto para os próprios cidadãos do país, pessoas das igrejas-membro do CMI estavam entre os primeiros a alertar a família ecumênica internacional acerca do estranho fenômeno de desaparecimento de pessoas", disse.

Harper lembrou ainda que entre os "desaparecidos" havia centenas de jovens militantes políticos, alguns deles pais de bebês ou crianças que ainda não haviam nascido. Foi então que as Avós da Praça de Maio, inspiradas também por sua campanha como Mães da Praça de Maio, buscaram apoio para sua busca pelas crianças desaparecidas.

Com o aparecimento de Guido, as Avós da Praça de Maio encontraram 114 das crianças desaparecidas ilegalmente levadas durante o regime militar.

Para muitos na Argentina, esta conquista não é o final da busca, considerando que ainda restam 400 crianças desaparecidas, hoje adultos, que foram abduzidas e "adotadas" por outras famílias que não tinham filhos. De acordo com Harper, "a maioria destas famílias era das forças armadas e da polícia".

* Com reportagens do Rev. Eugenio Albrecht, da Igreja Evangélica do Rio da Prata, da Agência LAtino-americana e Caribenha de Cominucação (ALC), de Charles Harper, ex-funcionário do CMI, e de Marcelo Schneider, funcionário do CMI na América Latina.