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Arcebispo de Cantuária reflete sobre a “peregrinação de justiça e paz”

Arcebispo de Cantuária reflete sobre a “peregrinação de justiça e paz”

O Arcebispo de Cantuária Justin Welby prega na Paróquia Santíssima Trindade, em São Paulo. © WCC/Marcelo Schneider

2014-09-16

English version published on: 2014-09-16

O Arcebispo de Cantuária Sua Graça Rev. Justin Welby generosamente concedeu uma entrevista sobre a "peregrinação de justiça e paz", em São Paulo, Brasil, no dia 4 de setembro. Sua visita ao país deu-se no contexto de uma jornada pessoal empreendida por Welby que já incluiu 31 províncias anglicanas ao redor do mundo desde sua coroação como arcebispo, em março de 2013.

O Arcebispo da Cantuária é o líder da Igreja da Inglaterra, uma das fundadoras do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).

O conceito de "peregrinação de justiça e paz" é fruto do chamado a todos os cristãos e todas as pessoas de boa vontade feito pela 10a Assembleia do CMI, um evento prestigiado por Welby, em novembro de 2013, na República da Coreia.

Por Marcelo Schneider (*)

O Arcebispo Welby fala sobre a peregrinação de justiça e paz

Esta peregrinação traz desafios e encorajamentos.

Quanto mais viajo, mais observo que o mundo é cada vez menos capaz de lidar com a diversidade. Em vez de abraçar o outro, parece que o estrangulamos. Ao longo dos últimos anos, houve conflitos em diversos níveis, inclusive conflitos violentos. Em lugares como a República Democrática do Congo e no Sudão do Sul, ouvi histórias terríveis sobre assassinatos, estupros e torturas de mulheres e crianças.

Outro aspecto de conflito é aquele com o meio ambiente. Quando visitei as Ilhas Salomon, observei que o problema não é simples. Esta nação passou por uma guerra recente e ainda luta por reconciliação, mas o maior problema que enfrenta hoje é o aumento do nível do mar. Deixar um país afundar é tão injusto quanto bombardeá-lo.

A injustiça e a falta de paz andam juntas. Por isso, a paz inclui a justiça.

Nesta peregrinação, há encorajamentos na vida da igreja. Sim, há divisões, mas vemos que o Espírito de Deus está agindo e movendo as pessoas a um profundo compromisso por justiça e paz. Deixe-me partilhar dois exemplos. Os líderes de igrejas do Sudão do Sul, em vez de tomar este ou aquele lado no conflito, estão pedindo reconciliação, apesar do alto risco pessoal que esta atitude gera. Na República Democrática do Congo, a Iniciativa dos Grandes Lagos, coordenada por líderes de igrejas, especialmente católicos, anglicanos, protestantes e pentecostais, está dando os primeros sinais de esperança em meio ao conflito, não somente no Congo, mas também em Ruanda, Burundi e Uganda.

Em breve, irei encontrar líderes da indústria da mineração para discutir o significado de operar de forma saudável neste tipo de negócio. A iniciativa é de cristãos na indústria de mineração.

O Espírito de Deus está agindo

O Espírito de Deus está agindo e superando diferenças denominacionais para abordar a questão do tráfico humano e da escravidão. O diálogo que tive com o papa Francisco neste sentido foi extremamente positivo. Ele é um homem com senso de humor e uma profunda e maravilhosa vida espiritual. Falamos sobre uma iniciativa entre a Igreja Católica e a Comunhão Anglicana em torno dos temas do tráfico humano e da escravidão. O projeto tem o importante apoio de uma fonte australiana que está profundamente comprometida em ajudar a terminar o tráfico humano e a escravidão ao redor do mundo.

Desde a Reforma, está é a primeira vez em que temos uma grande iniciativa conjunta que desafie o tráfico humano e a escravidão, ao lado de ONGs, ministérios especializados e igrejas que tem trabalhado nestas questões há tantos anos. Trata-se de um imenso desafio.

A Comunhão Anglicana tem uma rede global de campanha contra a violência doméstica e a violência de gênero, particularmente em situações de conflito. Neste verão, na Inglaterra, houve uma conferência organizada pelo governo britânico contra a violência de gênero na qual o Cardeal Nichols, Arcebispo na Inglaterra, e eu abordamos esta questão.

Qualquer igreja global que procure reavivar a presença de Jesus Cristo irá deparar-se com a centralidade do Espírito na peregrinação de justiça e paz e irá mudar o mundo.

O fundamentalismo e as relações entre o cristianismo e o islã

O fundamentalismo é uma questão mais sociológica do que simplesmente religiosa. Ele pode ocorrer em qualquer religião. O fundamentalismo, no sentido em que nos referimos  a ele hoje, é, geralmente, a reação de um grupo de pessoas que acha difícil lidar com as mudanças na sociedade em que vivem. Elas passam, então, a criar um espaço em que não há mudanças e no qual se sentem seguras. À parte da sociedade, os fudamentalistas rapidamente acabam tornando-se opositores desta mesma sociedade. Trata-se de uma característica que podemos identificar em diversas épocas da história.

No encontro que tive com líderes cristãos do Oriente Médio na Inglaterra, descrevemos o trauma das pessoas no Iraque e na Síria como o pior que já tocou a comunidade cristã na região desde a invasão de Genghis Khan, em 1259.

Como devemos responder a isto?

Temos visto diversos jovens muçulmanos na Europa, nos Estados Unidos e no Reino Unido que encontram um propósito na vida ao envolverem-se no Jihad. Esta compreensão de que que o Jihad implica violência é rejeitada pela vasta maioria dos muçulmanos. A única forma de podermos abordar esta questão é não simplificando-a, mas levando em consideração todos os aspectos. Esta questão deve ser discutida de maneira que reuna todas as tradições religiosas que valorizam uma abordagem não-violenta de resolução de conflitos.

Há uma pergunta que foi feita ao Papa Francisco sobre como devemos responder imediatamente a estas questões. Ele disse que não estava defendendo bombardeios, nem estou eu, mas que devemos buscar todas as formas possíveis de criar um porto seguro para os cristãos naquela região. Isto pode envolver soldados e operações de inteligência. Os governos devem decidir sobre como isto deve ser feito. Uma das coisas que mudou a minha opinião veio do encontro com os líderes do Oriente Médio que disseram "não queremos asilo, queremos ficar na área onde vivemos há 2000 anos".

Finalmente, as relações com o Islã são complicadas porque existe uma minoria extremamente perigosa. Mas no dia 3 de setembro, houve uma vigília pela paz no Iraque e na Síria, do lado de fora da Abadia de Westminster, com a participação de líderes muçulmanos, judeus e cristãos.

Um perigo é simplificar um problema que é extremamente complicado. Outro perigo é pensar que podemos lidar com isto rapidamente. Serão necessários muitos anos de construção e cultivo de relações, de lidar com problemas sociais e econômicos, mas, acima de tudo, de possibilitar aos jovens que abordem questões sobre o materialismo na sociedade para que enxerguem um propósito espiritual através do qual possam servir a Deus fielmente dentro da grande tradição do Jihad interno por justiça em suas vidas.

(*) Dr Marcelo Schneider é correspondente de comunicação do CMI para América Latina, em Porto Alegre, Brasil.

Peregrinação por Justiça e Paz

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