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“O compromisso do movimento ecumênico com as lutas das mulheres precisa ser ampliado cada vez mais”, afirma a nova secretária geral do conselho de igrejas do Brasil

2012-08-10

Por Marcelo Schneider*

No ano em que completa 30 anos, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) passou a ter a primeira mulher à frente da secretaria geral. A Pastora luterana Romi Márcia Bencke assumiu suas funções no início de agosto, em Brasília, e falou, por telefone, ao departamento de comunicação do Conselho Mundial de Igrejas sobre as suas expectativas, o significado de ser a primeira mulher a desempenhar esta função e o atual cenário religioso brasileiro.

Horas depois de receber a notícia de que havia sido selecionada para assumir o cargo de secretária geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), a pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) Romi Márcia Bencke participou de uma reunião informal com um grupo de amigos e amigas do CONIC, em Brasília, onde o texto de Habacuque 3.17-19 serviu como base para sua reflexão sobre a tarefa que acabara de assumir. O texto fala da fidelidade a Deus em momentos de escassez e da esperança de redenção.

Bencke assume o CONIC num momento delicado. O período de transição que levou à sua seleção para o cargo levou mais de seis meses e, não poucas vezes, foi árduo e doloroso. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs busca reformular sua identidade num contexto religioso e ecumênico muito diferente daquele em que foi criado, em 1982, e, ao mesmo tempo, manter-se fiel ao chamado ecumênico original. Além disso, o crescimento das igrejas neopentecostais, o aumento dos que se declaram sem religião e a atual limitação de recursos financeiros do CONIC, forma um cenário desafiador para a nova secretária geral.

Natural de Horizontina, Rio Grande do Sul, Bencke cursou teologia na Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo, entre 1992 e 1997. Durante este período, realizou um ano de intercâmbio no Seminário Ecumênico de Matanzas, Cuba, onde escreveu uma dissertação sobre o diálogo inter-religioso com a Santería, uma expressão religiosa afrocubana.

Depois de atuar por um ano numa comunidade de migrantes, em Alta Floresta do Oeste, Rondônia, foi ordenada ministra da IECLB e, entre 1999 a 2006, atuou como pastora em São Sepé, Rio Grande do Sul, onde, paralelamente colaborava com Centro Ecumênico de Capacitação e Assessoria (CECA), onde era responsável pelo Programa Fé e Cidadania.

Além de Teologia, Bencke tem especialização em Projetos Sociais e Culturais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e, atualmente, cursa o mestrado em Ciência da Religião, na Universidade Federal de Juiz de Fora, sobre o tema “Ecumenismo, valores sociais e modernidade: a percepção dos agentes eclesiais”. Temas como relações de gênero, religião e modernidade são presentes na teologia e no trabalho de Bencke, cujo mandato à frente da secretaria geral vai até 2015.

Recentemente, o IBGE divulgou uma pesquisa sobre o cenário religioso no Brasil. Um dos dados mais expressivos foi o aumento do número de pessoas que se declaram “sem religião”. Como é assumir um conselho de igrejas considerando esta realidade?

O aumento do número dos que se declaram “sem religião” é um dado importante para analisar a realidade brasileira.  Nosso contexto social ainda é pouco secularizado, pois, mesmo com o aumento deste grupo, ainda somos um país majoritariamente religioso. O censo do IBGE chama a atenção para dois fatores. O primeiro indicador interessante é este, o do aumento dos “sem religião”. Este dado poderia indicar que o Brasil pode estar passando por um processo de secularização. Neste processo, as pessoas podem assumir, expressar e pautar suas vidas a partir de valores sociais, que não necessariamente, possuem uma fundamentação ou inspiração religiosa. Este é o primeiro indicador. O outro aspecto que o censo do IBGE aponta é que um número significativo de pessoas se declaram religiosas, mas não assumem uma pertença religiosa institucional, indicando que pode estar em curso no Brasil um processo de desinstitucionalização religiosa. Estas pessoas procuram uma religião, por alguma razão muito específica e tendem a migrar de uma expressão religiosa á outra conforme as suas necessidades e ofertas do mercado religioso. Esta é uma característica da realidade brasileira. Assumir o CONIC nesta conjuntura é um grande desafio, pois este dado do IBGE nos desafia, nos faz perguntar acerca de como queremos ser igrejas cristãs no contexto brasileiro.

Qual a sua análise da natureza e papel do movimento ecumênico num país que respira tantas expressões religiosas diferentes? Qual o papel do diálogo e inter-religioso?

Sou uma entusiasta do diálogo inter-religioso. Acho que o Brasil vive uma conjuntura grande de desigualdade social e violência e a religião pode desempenhar um papel positivo nos esforços de superação destas realidades injustas. Neste sentido, o movimento ecumênico, do qual o CONIC é um dos porta-vozes, é um espaço de articulação importante de temas e ações em torno de questões que são comuns a todas as religiões, como a defesa dos direitos humanos e o cuidado com a natureza. Se ainda encontramos, em algumas igrejas, muita resistência em relação a celebrações inter-religiosas, creio que não há motivos para deixarmos de nos empenhar em torno de causas humanitárias e ecológicas, por exemplo.

Outro aspecto importante é que um conselho de igrejas como o CONIC serve de contraponto diante de expressões religiosas mais exclusivistas ou fundamentalistas. Acho que temos um papel importante a desempenhar neste debate.

Tradicionalmente, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (SOUC) é um dos pontos altos da atuação do CONIC. O período de transição que o Conselho atravessa afetou a articulação este ano? Quais as perspectivas para o futuro?

A SOUC é um dos carros-chefes do CONIC. Prova disto é que, apesar da difícil transição administrativa que atravessamos, a semana de 2012 foi muito boa. A tendência é melhorar em 2013, com articulações mais ousadas e maior cuidado com dificuldades recorrentes na divulgação e organização da SOUC, aumentando a rede de parceiros envolvidos e fortalecendo as regionais do CONIC.

As redes sociais têm transformado não só a forma como as pessoas partilham informações, mas também a comunicação institucional. Você espera o CONIC presente nestes espaços?

Acabamos de lançar uma nova página e criamos perfis em redes sociais, como Twitter e Facebook, com intuito de dar maior visibilidade para o trabalho do CONIC e mobilizar mais pessoas para a SOUC. Esperamos que estas mídias possam fortalecer nossas redes e mobilizar mais grupos em torno da semana de oração.

Atualmente, cinco igrejas compõem o CONIC: A Igreja Presbiteriana Unida, A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, A Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia e a Igreja Católica Apostólica Romana, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Você planeja trazer mais igrejas para o CONIC?

Talvez sim, mas isto depende de um processo interno de discussão com as igrejas que compõem o CONIC. Elas devem decidir. A diretoria e o conselho curador (presidentes das igrejas) deveriam estabelecer critérios. Vamos tornar o CONIC mais aberto? Vamos visitar as lideranças de novas igrejas? As respostas a estas perguntas, num contexto como o brasileiro, onde a cada dia surge uma nova igreja, é extremamente importante e tem que vir das lideranças das igrejas que compõem o Conselho. Creio que se a questão for colocada diretamente, sem um debate anterior, haveria certa resistência quase natural a expressões (neo)pentecostais. Por isso, talvez tenhamos que discutir primeiro o cenário religioso brasileiro e, a partir desta análise, definir critérios e processos para o convite e acolhimento de outras igrejas. Quando olhamos para a história do CONIC, vemos que já tivemos mais igrejas-membro.

Existe outro espaço ecumênico de articulação, diálogo e ação no Brasil chamado Fórum Ecumênico ACT Brasil (FE ACT Brasil), no qual o CONIC participa com maior ou menos intensidade nos últimos anos. Como você pretende se relacionar com o FE ACT Brasil?

Pessoalmente, acho que o CONIC tem que somar forças neste espaço. A nossa diretoria quer ver o CONIC mais ativo nesta articulação, porque historicamente sempre contribuímos no FE ACT Brasil. Nada mais justo que retomarmos a participação ativa neste espaço. Agenda do ecumenismo brasileiro está passando muito pelo FE ACT Brasil, com esta união em torno da defesa dos direitos fundamentais das pessoas e da natureza.

Qual o papel da juventude?

Acompanho um pouco do trabalho da Rede Ecumênica da Juventude (REJU) pelo Facebook. Acho ótima a articulação que esta rede promove, articulando os jovens do Brasil inteiro. Percebo que há uma abertura inter-religiosa importante e entendo que é uma iniciativa que deve ser apoiada e motivada.

A maioria dos jovens que participam da REJU não vem dos grupos de juventude das igrejas-membro do CONIC, mas de projetos apoiados por agências e organismos ecumênicos ou ligados a igrejas, como a CESE, KOINONIA e a Fundação Luterana de Diaconia, por exemplo. Qual a sua análise desta realidade?

Vivemos um momento de desinstitucionalização das religiões. As pessoas se assumem como religiosos, mas isto não significa que elas têm um vínculo institucional. Esta é uma mudança interessante no cenário religioso brasileiro. Este é mais um indicador da importância do movimento ecumênico, que, pode ser tanto, um espaço de diálogo entre as igrejas, como um ambiente que congrega pessoas que querem praticar sua fé e estar inseridos em algo, mas que não querem o vínculo institucional. O movimento ecumênico acaba sendo o vínculo indireto que as pessoas têm com as igrejas. Neste Sentido, a REJU é um desafio positivo às juventudes das igrejas.

Você é a primeira mulher a ser secretária geral do CONIC. Qual a sua leitura deste fato?

Uma das principais reivindicações de nós mulheres ativas no movimento ecumênico tem sido que as mulheres também passem a ocupar espaços de direção em organismos e espaços ecumênicos e ligados a igrejas. Por isso, o fato de eu assumir este cargo pode sinalizar uma pequena, mas significativa mudança nos espaços de direção das igrejas e dos organismos ecumênicos. Ter sido acolhida no momento em que a presidência do CONIC é exercida por um bispo católico também demonstra uma abertura interessante. Tenho recebido muito apoio de diversas pessoas da igreja católica, que demonstram felicidade com o fato de eu assumir esta tarefa.

Outra questão significativa de assumir este cargo neste momento é que a pesquisa do IBGE, da qual falamos acima, também mostrou que a maioria das mulheres no Brasil se assume como religiosas.

O fato de uma mulher ser a secretária geral do CONIC também reflete a necessidade de ampliar, cada vez mais, o compromisso do movimento ecumênico com as lutas das mulheres. Também acredito que temos uma grande responsabilidade de refletir sobre a realidade das mulheres no contexto brasileiro, em que a maioria de nós se declara religiosa e que, ao mesmo tempo, vive situações de violência e agressão bastante significativas. Por isso, poder refletir sobre qual o papel das mulheres cristãs e de outras religiões na defesa de todas as mulheres é um desafio grande. Eu me sinto responsabilizada em fortalecer as bandeiras das mulheres.

O Conselho Mundial de Igrejas vai celebrar em 2013 sua 10ª Assembleia, em Busan, República da Coreia, sob o tema “Deus da vida, guia-nos à justiça e à paz”. Como estas três categorias (vida, justiça e paz) se refletem na sua teologia?

Ao ler o tema da próxima Assembléia do CMI, imediatamente, vem à cabeça temas relacionados à transformação das relações econômicas, sociais, ambientais e de gênero. Não há o que justifique que em um país como no Brasil, que tem indústrias significativamente fortes e riquezas naturais, ainda exista um contingente grande de pessoas que vivem em absoluta pobreza. A concentração de riqueza é uma das causas da injustiça em nosso país: 10% da população mais rica detêm 75,4% de toda riqueza do país.  Isto é absurdo.

O segundo tema que vem à cabeça são as restrições culturais, políticas, econômicas que impedem que as mulheres tenham acesso à justiça de maneira ampla. Ainda temos muito que avançar para que as plataformas internacionais relacionadas aos direitos das mulheres sejam concretizadas no Brasil. Ao considerar que 93% das mulheres brasileiras se assumem como religiosas, o compromisso das igrejas se torna essencial para que as reivindicações das mulheres sejam visibilizadas e concretizadas.


* Dr Marcelo Schneider mora em Porto Alegre, Brasil, e trabalha como correspondente de comunicação do Conselho Mundial de Igrejas.