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Igrejas reassumem o compromisso de acelerar a resposta ao HIV

Em sua reunião do Comitê Central em Trondheim, Noruega no final de junho, o CMI reafirmou seu compromisso de eliminar a AIDS como uma ameaça à saúde pública até 2030.

28 June 2016

E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos. (Gálatas 6:9)

Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

Nós, membros do comitê central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e parceiros ecumênicos presentes, dirigimo-nos a vocês, companheiros peregrinos na nossa jornada por justiça e paz. Entre as deliberações, tomadas com auxílio de orações, durante nosso recente encontro em Trondheim, Noruega, reafirmamos com alegria que o amor de Deus é para todos, independentemente do seu status de HIV. Fomos lembrados da profundidade e da amplitude da resposta das igrejas ao HIV desde o início da pandemia e afirmamos que caminhamos ao lado das pessoas que convivem com o HIV nas nossas comunidades de fé e mais além. Somos exortados pelo amor de Cristo a ir mais além do que é confortável ou conveniente, particularmente ao estender a mão àqueles que vivem às margens da sociedade e das nossas teologias.

Este ano é particularmente significativo para a resposta global à pandemia, com os novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável enquadrando respostas internacionais às vastas injustiças nas nossas comunidades e no mundo. Uma nova declaração política das Nações Unidas sobre o HIV estabeleceu compromissos vitais para os governos a fim de realizar um esforço intensificado para erradicar a AIDS. No entanto, esforços isolados não são suficientes.

Como Conselho Mundial de Igrejas, ao lado de nossos parceiros ecumênicos e de todas as pessoas de boa vontade, nos vemos obrigados a contribuir para “Erradicar a AIDS até 2030”. Para nós, isso significa acompanhar pessoas e comunidades que convivem com ou que sejam vulneráveis ao HIV todos os dias, todos os meses, todos os anos - até que a AIDS tenha sido superada.

Lembrar e refletir

A pandemia do HIV está agora em sua quarta década. Desde 1984, o CMI está ativamente envolvido na resposta à pandemia, promovendo a reflexão entre suas igrejas-membro, oferecendo acompanhamento pastoral e facilitando autonomia para incidência e ação. Em 1986, o Comitê Executivo do CMI declarou profeticamente - “A AIDS nos desafia profundamente a ser a Igreja em ação e verdade: ser a Igreja como uma comunidade de cura. A AIDS parte corações e desafia as igrejas a partirem seus próprios corações para se arrependerem da inatividade e de moralismos rígidos”. Também afirmou e apoiou toda a comunidade médica e de pesquisa em seus esforços para combater a doença.[1]

Em 1996, o Comitê Central do CMI lembrou as igrejas de reconhecer o elo entre a AIDS e a pobreza, e de promover o desenvolvimento justo e sustentável e dar atenção especial a situações que aumentem a vulnerabilidade à AIDS. De maneira especial, as igrejas foram convidadas a trabalhar junto às mulheres em sua busca por plenitude de sua dignidade e expressão de seus dons em sua totalidade. As igrejas também foram lembradas a instruir e envolver jovens e homens, a fim de evitar a disseminação do HIV. As igrejas também foram chamadas a compreender mais a fundo o dom da sexualidade humana nos contextos de responsabilidade pessoal, relacionamentos, família e fé cristã. O Comitê Central pediu às igrejas que abordassem a pandemia do consumo de drogas e o seu papel na disseminação do HIV e desenvolvessem respostas localmente relevantes em termos de assistência, tratamento do vício, reabilitação e prevenção.[2]

A reunião do Comitê Central do CMI, em 6 de setembro de 2006, em Genebra, reviu o trabalho do movimento ecumênico em relação ao HIV e reassumiu o compromisso das igrejas de se tornarem mais compassivas e competentes na resposta ao HIV e à AIDS. O Comitê Central do CMI também exortou comunidades baseadas na fé a defender a ideia de que tratamentos antirretrovirais, bem como o tratamento para outras infecções oportunistas, sejam disponibilizados e estejam disponíveis para todos.  Os líderes das igrejas foram incentivados a exercer seu papel de defensores de políticas justas e a cobrar os governos por suas promessas.[3] Este ano, 2016, a jornada ecumênica com o HIV desde 1984 foi capturada no livro Passion and Compassion, The Ecumenical Journey with HIV.

O HIV deu e continua a dar lições a todos os setores da sociedade.[4] Foi amplamente reconhecido que a resposta foi como nenhuma outra. As pessoas que convivem com o HIV tiveram um papel fundamental na resposta e demonstraram que a liderança e o envolvimento daqueles mais afetados é essencial para lidar com suas causas originais e implementar soluções eficazes. A pandemia evidenciou as múltiplas facetas destas causas originais e das injustiças que promovem o HIV. Nelas, se incluem o estigma, a discriminação, a violência sexual e baseada em gênero, as desigualdades de gênero, o abuso de poder e a quebra de confiança. Disparidades econômicas promovem e perpetuam um ambiente de males sociais nos quais prospera a transmissão do HIV. Na resposta ao HIV, foram feitos esforços consideráveis para que o enfoque principal estivesse nas pessoas e em suas necessidades e, através de uma colaboração sem precedentes em todos os setores da sociedade, foram alcançados resultados extraordinários em prevenção, tratamento, assistência e suporte. A pandemia rejuvenesceu a apreciação de que a fé tem um papel essencial na saúde e na cura, além do reconhecimento da saúde como um direito humano.

Hoje, quase 16 milhões de pessoas estão em tratamento. Este grande sucesso é o resultado de esforços concentrados de todos os setores e sua dedicação ao trabalho visando o 6o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas. No entanto, a pandemia do HIV está longe de acabar.

O HIV permanece uma das áreas mais críticas que seguem necessitando constante intervenção nos dias de hoje. Atualmente, 21 milhões de pessoas não têm acesso ao tratamento do HIV e quase metade das 37 milhões de pessoas que convivem com o HIV nem sabem que são HIV-positivas. Atualmente, doenças relacionadas à AIDS são a principal causa da morte de adolescentes na África. As mortes acumuladas de mais de 30 milhões relacionadas à AIDS crescem em mais de 1 milhão todos os anos. Além disso, há mais de 2 milhões de novas infecções a cada ano. Elas atingem mais de 5.000 garotas no sudeste da África a cada semana. Estamos enfrentando a catástrofe de 6 milhões de órfãos relacionados à AIDS e este número está crescendo. Apesar de todos os avanços médicos na prevenção da transmissão de mãe para filho, 220.000 crianças foram infectadas em 2014. Crianças que convivem com o HIV têm muito menos acesso ao tratamento que adultos. Outras evidências mostram que mundialmente, em 2013, 1,6 milhão de pessoas que convivem com o HIV foram afetadas por emergências humanitárias, particularmente violência e conflito, com mais de 80% desses afetados na África subsaariana. Essas estatísticas, que implicam histórias não contadas de perda, dor e incrível adversidade, são intoleráveis e exigem uma resposta fiel e sustentada da comunidade da fé.

Desde o início da pandemia, reconhecemos que algumas das respostas baseadas na fé - em comum com reações na sociedade em geral - foram contraproducentes para a resposta, exacerbando estigma, estimulando a desinformação e permanecendo no silêncio em questões de vulnerabilidade. Mesmo assim, reconhecemos também que as igrejas e seus serviços relacionados à saúde forneceram assistência, tratamento e suporte compassivos, frequentemente entre os pobres e os mais vulneráveis. Com o passar dos anos, as igrejas-membro do CMI, suas instituições teológicas e parceiros ecumênicos também proporcionavam uma liderança vital em reflexões contextuais bíblicas e teológicas e na produção e distribuição de literatura, liturgias e manuais teológicos. Com sua resposta de múltiplas facetas, as igrejas proclamaram que o HIV não é apenas uma questão médica. Mais precisamente, é uma realidade social que exige embasamento bíblico e teológico profundo e teologias essenciais para a vida que incorporem justiça, cura, paz e a plenitude da vida.

O movimento ecumênico se comprometeu e continua a nutrir um envolvimento total com o HIV, que varia desde acompanhamento até reflexão, ação e amparo. Duas iniciativas ecumênicas de importância crítica do CMI são a Ecumenical Advocacy Alliance (EAA desde 2000) e a Ecumenical HIV and AIDS Initiatives and Advocacy (EHAIA desde 2002).

A WCC-EHAIA focou em acompanhamento e formação de capacidade. Ela busca promover a competência e o amparo sobre HIV entre igrejas e trabalha com instituições teológicas para integrar o HIV no currículo teológico. Também produz literatura teológica que promove teologias de afirmação da vida, lida com as causas originais da vulnerabilidade ao HIV, incluindo desigualdades de gênero, violência sexual e baseada em gênero, e promove o diálogo entre gerações sobre sexo e sexualidade. O uso de estudos contextuais da Bíblia tem sido uma metodologia fundamental.

A WCC-EAA é uma rede internacional de igrejas e organizações relacionadas à igreja comprometidas com a realização de campanhas sobre preocupações em comum.  O HIV foi identificado em sua fundação como uma das duas questões urgentes que necessitavam de amparo global. A campanha sobre o HIV, chamada de “Viva a Promessa”, aborda o estigma e a discriminação, apoia o acesso universal ao tratamento, enfrenta barreiras políticas e legais que limitam o acesso e negam direitos a pessoas que convivem com o HIV, promove a obtenção de recursos suficiente e sustentável e encoraja a responsabilização de governos e igrejas. A aliança equipa igrejas e se assegura de que elas tenham a capacidade tão necessária para assumir esse apoio.

O movimento ecumênico também assegurou a participação maior e significativa de pessoas que convivem com o HIV em todas as discussões relacionadas ao HIV, no desenvolvimento de políticas e na implementação de programas. Em 2005, o CMI desenvolveu uma política de locais de trabalho para auxiliar suas igrejas-membro e organizações ecumênicas a atualizar suas políticas para garantir que pessoas que convivem com o HIV estejam protegidas em instituições associadas a igrejas e organizações relacionadas.[5] Reconhecendo a necessidade e a importância de pessoas que convivem com o HIV de desenvolver suas próprias organizações, convenções e redes – tanto no contexto secular como no contexto religioso, o movimento ecumênico acompanhou a formação e o desenvolvimento da African Network of Religious Leaders Living with or Personally Affected by HIV and AIDS (ANERELA+) e mais tarde da International Network of Religious Leaders Living with or Personally Affected by HIV (INERELA+).  O CMI também desenvolveu informações importantes e diretrizes para suas igrejas-membro e organizações ecumênicas para equipá-las a fim de desenvolver parcerias com redes de pessoas que convivem com o HIV.[6]

Um chamado à ação

É vital que nos próximos anos as igrejas-membro do CMI e seus parceiros ecumênicos aumentem seus esforços para eliminar as causas raízes da transmissão do HIV e da AIDS e continuem seu apoio, acompanhamento e suporte espiritual a pessoas que convivem com o HIV. Uma vez que as igrejas passaram a fazer parte do processo de articulação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável adotados em setembro de 2015, foi traçado um mapa bem definido pelas Nações Unidas para erradicar a AIDS até 2030. Para isso, foram estabelecidos objetivos intermediários para 2020. Esses objetivos incluem pelo menos 90% de pessoas que convivem com o HIV e que sabem de seu status de HIV; 90% dessas pessoas que sabem de seu status têm acesso ao tratamento; e 90% das pessoas em tratamento têm uma carga viral indetectável - o que significa que virtualmente não existe risco de transmissão do HIV. Consequentemente, o aumento da escala de serviço nos próximos quatro anos é crítico. Sem o suporte e a mobilização significativos da comunidade da fé, isso não será alcançado.

A comunidade internacional, reconhecendo o papel fundamental da resposta da fé, apelou para as comunidades da fé para responder com um senso de urgência renovado. Como um povo de fé, também somos chamados por Deus para facilitar a “vida em abundância” para todos os povos de Deus. Estamos obrigados pelo nosso compromisso com Deus e com o povo de Deus a atentar para esses chamados.

Na nossa peregrinação de Justiça e Paz, exortamos as igrejas-membro do CMI, os parceiros ecumênicos e as pessoas de boa vontade a:

Liderar pelo exemplo:

  • Ao sermos testados
  • Vendo Deus no outro e em particular nas pessoas às margens da sociedade
  • Vivendo vidas que respeitem a dignidade dos fracos e vulneráveis
  • Na criação de espaços seguros de graça em nossas igrejas e comunidades onde as pessoas se sentirão bem-vindas, protegidas, afirmadas e aceitas
  • Trabalhando de perto com profissionais da saúde cristãos

Prover subsistência aos que vivem em necessidade:

  • Facilitando o conhecimento e o ambiente para pessoas de todas as idades para que se protejam contra infecção
  • Oferecendo cuidados abrangentes (pastoral, médico, espiritual e nutricional)
  • Tornando nossas instalações educacionais e de atendimento à saúde lugares seguros e receptivos para aqueles que convivem com o HIV e que sejam vulneráveis a ele

Usar nossa voz profética:

  • Falando com e por aqueles que sofrem injustiça e exclusão
  • Falando abertamente contra o estigma e a discriminação em todos os níveis da sociedade incluindo nossas próprias igrejas
  • Promovendo a teologia e a prática religiosa que afirme uma compreensão positiva e holística da sexualidade e das relações humanas
  • Falando contra leis que criem vulnerabilidade ao HIV
  • Cobrando de governos a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e os compromissos assumidos na declaração política das Nações Unidas de 2016 sobre o HIV
  • Defendendo o acesso amplo à prevenção, tratamento, assistência e suporte abrangente do HIV
  • Desafiando corporações e indústria a operar moralmente, permitindo o acesso a diagnósticos e medicamentos acessíveis e de qualidade para todos.

Estamos comprometidos com essas ações como membros do Comitê Central do CMI e parceiros ecumênicos presentes, com devota confiança na sabedoria e no poder do Deus da Vida, e pedimos a você que se junte a nós neste compromisso. “Somos uma comunhão viva, uma comunidade de peregrinos. Caminhamos juntos ruma a uma vida plena. Oramos pedindo a orientação e a inspiração de Deus para que a nossa peregrinação nos abra uns aos outros através de uma interação dinâmica e criativa pela justiça. Deus da vida, conduza-nos a ser instrumentos vivos da sua justiça e paz! ”[7]

Trondheim, 28 de junho de 2016

Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas


[1] Declaração do Comitê Executivo do CMI “AIDS e as igrejas”, Reykjavik, Islândia 15-19 de setembro de 1986 (http://www.wcc-coe.org/wcc/what/mission/ehaia-html/executive-commitee-1986-e.html)

[2] ‘O impacto do HIV/AIDS e a resposta das igrejas, 30 de setembro de 1996, declaração adotada pelo comitê central do CMI com base no grupo consultivo do CMI sobre o processo de estudo da AIDS.

(https://www.oikoumene.org/en/resources/documents/central-committee/1996/the-impact-of-hivaids-and-the-churches-response)

[3] Comitê Central do CMI, 06 de setembro de 2006, declaração sobre a resposta compassiva das igrejas ao HIV e à AIDS (https://www.oikoumene.org/en/resources/documents/central-committee/2006/report-on-public-issues)

[4] As lições aprendidas com o HIV foram inestimáveis para fornecer ferramentas para lidar com o Ebola.

[5] Dirigido a uma política sobre HIV/AIDS, WCC, 2006, http://tinyurl.com/gqy9gk5.

[6] Diretrizes: Parcerias entre igrejas e pessoas que convivem com o HIV/Organizações para a AIDS, CMI, 2005, http://tinyurl.com/zaqg6zv

[7] Um convite para a peregrinação de justiça e paz, Comitê Central, 08 de julho de 2014 (http://www.oikoumene.org/en/resources/documents/central-committee/geneva-2014/an-invitation-to-the-pilgrimage-of-justice-and-peace)

Download : Pastoral_Letter_HIV_Response_PT.pdf