Derrubem os Muros! Chega de Racismo e Discriminação Racial!
Mensagem da Conferência do Conselho Mundial de Igrejas "Igrejas reagindo a desafios de racismo e semelhantes formas de discriminação eexclusão" organizada para comemorar o 40o. aniversário do Programa de Combate ao Racismo em ooperação com o Conselho de Igrejas da Holanda, ICCO, a Associação de Igrejas Migrantes (SKIN), KerkinActie a Fundação Oikos em Doorn, Holanda,14-17 de Junho de 2009
Chamados pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), por ocasião do 40º. aniversário do Programa de Combate ao Racismo (PCR) e baseado no nosso entendimento dos princípios básicos de nossa fé, acreditamos que todos os cristãos e cristãs têm a responsabilidade comum de trabalhar por justiça racial e inclusão, e com aqueles e aquelas que sofrem discriminação racial e exclusão, como os Dalits, imigrantes, pessoas de descendência africana, comunidades indígenas e o povo palestino.
Recorremos ao Conselho Mundial de Igrejas para que renove e redefina suas prioridades e inicie um novo movimento junto às igrejas acerca da questão do racismo, divisão de castas e formas relacionadas de exclusão no novo contexto da crise econômica e ambiental e de focos de reavivamento nacionalista. Este movimento deve basear-se na experiência viva das pessoas e comunidades diretamente afetadas por estes processos de exclusão e injustiça. Deve engajar as comunidades da sociedade civil que já estão na luta por justiça racial, econômica e ambiental, alcançar as esferas decisórias das igrejas, não se restringindo àquelas que são membros do CMI, e dar atenção especial à juventude e às crianças. Por isso nós recorremos ao CMI para que inicie a Década de Superação do Racismo e Criação de Comunidades Justas e Inclusivas.
Pedimos ao CMI que interceda junto às igrejas da Índia para que abordem prioritariamente a questão da discriminação de castas.
O Programa de Combate ao Racismo desempenhou um papel histórico ao inspirar uma geração de luta anti-racista nas igrejas. A história do PCR é uma fonte inestimável para as igrejas na sua luta contínua, e pedimos que o CMI documente esta história e seu significado de forma que possa ser facilmente partilhada – de preferência um vídeo de curta duração, que possa ser distribuído em formato de DVD ou através da internet. Ações inspiradas no PCR e outras iniciativas relevantes, assim como materiais em muitas igrejas ao redor do mundo, ainda não foram reunidas sob a forma de uma fonte coletiva de recursos para o futuro. Pedimos o estabelecimento dos meios (de preferência através da internet) para que este material e recursos sejam reunidos e tornados acessíveis às igrejas e ao público em geral ao redor do mundo.
Recomendamos que o Dia Internacional de Eliminação da Discriminação Racial (21 de março) seja adotado como um evento ecumênico anual, no qual as igrejas desenvolvam, partilhem e distribuam liturgias, orações e outros materiais relevantes para a ocasião.
Acreditamos que é necessário desenvolver uma nova articulação do compromisso ecumênico para desafiar a discriminação e promover justiça e inclusão racial, usando especialmente recursos gráficos/visuais e expressões da cultura popular – e pedimos que o CMI faça isto.
Consideramos que, como igrejas e pessoas cristãs, deveríamos refletir conscientemente acerca das maneiras através das quais perpetramos a exclusão e a discriminação racial através do mal uso das Escrituras, assim como através das tradições, atitudes e práticas de exclusão – e deveríamos procurar libertar as igrejas destas tendências. A promoção de interpretações multiculturais, multigeracionais e multicontextuais de passagens bíblicas que lidam com a questão do racismo e exclusão e a criação de recursos por parte das igrejas será essencial para alcançar estes objetivos.
Precisamos abordagens teológicas novas e desafiadoras no que tange a justiça racial, abandonando os discursos correntes que lidam com as pessoas excluídas e oprimidas, adotando uma abordagem ligada aos Direitos Humanos e desconstruindo a posição dos dominantes.
Devemos promover sensibilidade e conscientização acerca do subtexto racista em expressões comuns, nas quais ‘preto’ e ‘branco’ são usados como metáforas associadas a valores negativos e positivos, e lutar pela eliminação destas expressões no uso cotidiano, especialmente por parte aqueles que ocupam posições de liderança e influência na igreja e na sociedade.
Comentário teológico
Num mundo que geme de dor, exploração e fragmentação da humanidade ferida, Deus demonstra o amor divino ao acompanhar a humanidade neste tempo e lugar. De forma integral à criação, Deus criou os seres humanos, todos e todas diferentes, com direitos e responsabilidades iguais na morada de Deus (oikos). Seres humanos vivendo interdependência manifestam a presença divina. A interpretação africana do termo Ubuntu nos chama a ser totalmente humanos e em direta conexão uns(umas) com os(as) outros(as). O(a) outro(a) não é um(a) estranho(a). Ele ou ela não está separado da gente: eu sou porque você é. Não podemos existir sem o(a) outro(a). Pertencemos um(a) ao(a) outro(a).
Nossa vocação como comunidades cristãs é praticar uma teologia de solidariedade e hospitalidade da forma como estas aparecem encarnadas no discipulado profético de Jesus Cristo. Esta teologia é caracterizada pela integridade, honestidade, humildade, compaixão, amor, justiça e reconciliação. Acreditamos que a dignidade e os Direitos Humanos são parte central do Evangelho e, da forma como foram concretizados por convenções internacionais, a matriz mais construtiva para o trabalho das igrejas na área de defesa de causa. O princípio de anti-discriminação é parte do princípio de igualdade para todos e todas.
O Povo de Deus é uma comunidade de amor e liberdade, é uma igreja que inclui os(as) oprimidos(as) e desfavorecidos(as) e as vítimas de políticas e instituições racistas. Ele transcende todas as fronteiras e rejeita ideologias preconceituosas para construir comunidades novas, justas e inclusivas. Comprometemos-nos a viver pelo poder do amor e não pelo amor ao poder.
Quem somos, por que estamos aqui e no que cremos
Somos mulheres e homens, jovens e idosos, leigos e clérigos, ativistas e administradores de igrejas, acadêmicos e teólogos vindos dos quatro cantos do planeta. Cinqüenta de nós reunimo-nos por três dias a convite do Conselho Mundial de Igrejas por ocasião do 40º. aniversário do Programa de Combate ao Racismo e também por ocasião dos 33 anos do levante de Soweto e do 20º. aniversário da queda do muro de Berlim. Celebramos a significante contribuição do PCR para o final do Apartheid e o encorajamento dado às igrejas para que abordassem a questão do racismo. Reconhecemos, entretanto, que falhamos no que tange a erradicação do racismo. Também desafiamos a exclusão deste debate de qualquer situação relevante, incluindo a do povo palestino.
Cremos que há um kairos neste momento para uma ação comprometida por parte das igrejas e além delas, é uma época especial de Deus, um tempo de crise e oportunidade. Cremos que este é um momento em que somos convidados(as) por Deus para nos comprometermos a ser instrumentos de mudança na igreja e na sociedade. Cremos que Deus está chamando membros da igreja à ação com e em nome dos(as) marginalizados(as), pobres e todos(as) os(as) excluídos(as). Cremos que, ao reagir a este chamado, temos a fé e os recursos para fazer a diferença na comunidade global na qual vivemos.
Cremos que Deus diz: Chega!
Violentamos o planeta. Roubamos bens uns(umas) dos(as) outros(as). Em nome da ganância, criamos uma ideologia de exclusão e discriminação. A crise econômica global, as mudanças climáticas e a exclusão sistêmica – gerando desespero e aumento nos fluxos migratórios – são os três eixos da crise que criam o kairos e chama-nos ao arrependimento. Falhamos no amoar ao próximo assim como amamos a nós mesmos. Precisamos nos arrepender dos pecados do racismo, consumismo e capitalismo, que são formas de rebelião contra Deus.
Deus diz: Chega!
É hora de um novo momento. É hora de um novo mundo, como comunidade justa e inclusiva. É hora de uma nova espiritualidade que valorize mais ubuntu do que o individualismo, mais a interdependência do que o nacionalismo, e mais o conteúdo do caráter do que a cor da pele. Tal nova espiritualidade nos chama a acolher a presença de Deus em toda criação quando dizemos: existo porque a criação existe.
Deus diz: Chega!
Temos recursos de resistência. Temos recursos de sustentabilidade. Temos recursos de fé que enraizam nossa esperança num futuro que promete igualdade e integralidade para todo o povo de Deus.
Confissão
Como igreja, somos membros de comunidades marcadas por julgamentos feitos à base de formas de intolerância de raça, gênero, xenofobia ou como o sistema de castas. Mas, ao mesmo tempo, confessamos que somos comunidades que freqüentemente fazem falsos julgamentos acerca dos outros, somos culpados e buscamos proteger nosso privilégio através da exclusão de outros.
Reconhecemos que, como igrejas, fomos freqüentemente tolhidos por nossa tradição, instituições e estruturas de poder. Às vezes, ao trabalhar em nome do interesse do Estado e do capital, falhamos no questionamento às leis, instituições e estruturas de poder e opressão. Falhamos no que tange a vivência da visão de uma morada de Deus e nossas compreensões partilhadas acerca de hospitalidade, inclusão e justiça em nossa fé e em diálogo com outras confissões de fé.
Queremos ser parte da promessa de Deus por um mundo reconciliado. Confessamos que somos tanto opressores(as) como oprimidos(as) e reconhecemos nossa necessidade de arrependimento. Confessamos a necessidade de reparo e conserto quando nos comprometemos com nossa santidade e unidade.
Nosso compromisso
Reunidos aqui, comprometemo-nos a expandir nossos meios de trabalhar para transformar nossas igrejas, comunidades e o mundo por um futuro justo do ponto de vista racial.
Convidamos e conclamamos a todos os setores do movimento ecumênico para que, assim como o CMI afirmou na Conferência Mundial contra o Racismo, em 2001, "seriamente lutemos para quebrar o ciclos de racismo global e ajudemos os(as) oprimidos(as) a alcançar a auto-determinação".

