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Documento n° A 02Para análise

Relatório do secretário geral


A Festa da Vida 

Caras irmãs, caros irmãos em Cristo. 

1. Que ótimo estar aqui no Brasil! Que maravilha estarmos juntos! Também eu gostaria de dar as boas-vindas a todos vocês nessa primeira Assembléia do CMI no século 21, que é também a primeira que acontece nesta região do mundo. Dou as boas-vindas também a visitantes de outras religiões presentes entre nós, agradecendo-lhes por terem vindo. Um agradecimento muito especial a nossos anfitriões brasileiros por sua fantástica hospitalidade e pelos excelentes preparativos para esta Assembléia. 

2. Deus, em tua graça, transforma o mundo! Este tema adquiriu vida para mim durante minhas visitas às igrejas-membro nos últimos dois anos. Ao nos reunirmos aqui neste continente, comemoramos com o povo sul-americano a recente eleição da Sra. Michelle Bachelet como primeira presidente-mulher do Chile, e de Evo Morales como primeiro presidente indígena na Bolívia. Comentando essa evolução histórica, um amigo ecumênico da América Latina me disse: "Isto significa que as sementes da paz, justiça e democracia plantadas vinte ou trinta anos atrás brotaram ao longo dos anos e agora estão florescendo”. Na seqüência ele agradeceu ao CMI por contribuir para com os esforços que conduziram aos frutos que eles agora estão colhendo. 

3. Com isso me lembro das comoventes experiências que tive durante minha visita à América do Sul em novembro de 2004. Um momento especial foi em Buenos Aires, Argentina. As líderes das Mães e Avós da Plaza de Mayo me contaram que durante as ditaduras em meados dos anos 70 foram igrejas e organizações ecumênicas que providenciaram o "lugar seguro" onde os parentes dos desaparecidos pudessem se reunir, para carregarem juntos sua desgraça e esperança. Uma delas não conteve as lágrimas ao contar o que o apoio do CMI tinha significado para ela. Disse que, não fora esse acompanhamento, ela provavelmente não estaria ali para contar a sua história. Mas o que realmente me impressionou foram os depoimentos daquelas mães e avós de pessoas desaparecidas. Por mais de trinta anos elas mantiveram acesa a chama da esperança na busca por verdade e justiça. A provação do seu espírito somente é igualada por sua incrível resistência e sua capacidade de recobrar o ânimo. 

4. Em minhas viagens repetidas vezes tenho presenciado esses sinais de esperança. As pessoas celebram a vida em lugares onde, humanamente falando, somente se poderia enxergar morte e desespero. É essa capacidade de celebrar em conjunto e de fortalecer a vida em comunidade que continua dando alento à África. Isto me traz à memória aquilo que liga minhas próprias experiências como africano com a história do Brasil e deste continente. Na viva e esfuziante celebração do carnaval vislumbro lampejos do legado africano! 

5. Como cristão percebo a dádiva da graça de Deus nesses momentos em que a vida se transforma e um lampejo de esperança se torna realidade. É esse cenário que me faz sonhar com o movimento ecumênico como movimento de pessoas mensageiras da graça de Deus, de gente aberta em suas relações entre si, descobrindo a presença de Cristo e da graça de Deus na outra pessoa. Enxergar Cristo no outro é algo muito mais forte que tudo que nos separa. A recompensa na busca por unidade visível das igrejas em Cristo está em descobrir a presença da graça de Deus uns nos outros em nossa jornada conjunta. 

6. No relatório que lhes apresento hoje eu gostaria de sublinhar cinco aspectos de um movimento ecumênico aberto para esses sinais para graça transformadora de Deus como movimento de vida. Falarei um pouco sobre esta Assembléia e sobre dimensões essenciais inerentes ao desafio que o CMI está enfrentando. Falo de um movimento ecumênico que:

  • está alicerçado na espiritualidade
  • leva a sério a formação ecumênica e a juventude
  • ousa empenhar-se pela justiça transformadora
  • coloca no centro os relacionamentos relações
  • assume riscos para desenvolver formas novas e criativas de trabalhar.

Um movimento ecumênico diariamente alicerçado na espiritualidade 

7. Estamos nos reunindo aqui em Porto Alegre para refletir, deliberar, discutir e tomar decisões. Acima de tudo, porém, reunimo-nos para orar pela unidade das igrejas e pelo mundo, para nos regozijar no compartilhar da experiência de glorificação a Deus em Cristo e para afirmar o profundo vínculo espiritual que nos mantém juntos por sobre muitas linhas divisórias. Imaginem como será daqui a dez anos, quando esta Assembléia terá ficado muito para trás, quando os relatórios tiverem sido escritos e as decisões, devidamente observadas. Quais serão nossas principais lembranças? Muito provavelmente as orações em conjunto na Tenda de Culto, o murmúrio do Pai-Nosso orado em 100 línguas diferentes; e a extasiante sensação desta Assembléia, em toda a bonita diversidade daqueles e daquelas que se reuniram para louvar a Deus, àquele que nos concedeu a vida. 

8. Convido-os a pensar na base espiritual do movimento ecumênico como festa da vida. O convite para a festa vem de Deus, e todos somos bem-vindos. Esta festa vem a nós como graça. O assombroso da graça é que ela é um presente que não merecemos, recompensa que não granjeamos, mas que nos é dada gratuitamente para a nossa participação. Na tradição cristã a graça é definida como uma dádiva espiritual, sobrenatural, que nós seres humanos recebemos de Deus sem qualquer mérito da nossa parte. Graça pode ser definida melhor como sinais e até mesmo atos do amor divino. A graça se revela como Deus comunicando Deus-mesmo. 

9. Num sermão para a Páscoa, o padre dentre os santos, São João Crisóstomo, disse isto de modo admirável:

A mesa está repleta, alegrem-se todos. O novilho está cevado, que ninguém saia com fome. Desfrutem todos o banquete da fé. Desfrutem todos a riqueza da bondade de Deus... Que ninguém fique lamentando seus erros, porque o perdão se levantou da sepultura. Que ninguém tenha medo da morte, porque a morte do Salvador nos libertou. 

10. Festa da vida. Fiesta de la vida. The feast of life. Fête de la vie. Fest des Lebens. Karamu la maisha! 

11. Como igrejas celebramos a presença doadora de vida de Deus entre nós na Santa Eucaristia. É na mesa do Senhor que o corpo partido de Cristo e o sangue derramado na cruz criam nova comunidade reconciliada com Deus. Essa visão eucarística do mundo reconciliado e unido a Deus em Cristo está no âmago da unidade visível da igreja que buscamos. Essa visão está enraizada na fé. 

12. O discernimento espiritual é essencial em nosso caminho para a unidade. Ao falar de espiritualidade, quero deixar claro que não me refiro apenas a respostas religiosas ou quase-religiosas para a perceptível falta de sentido mais profundo nos valores das sociedades afluentes, embora seja real a fome espiritual nessas sociedades. Quero apontar aqui para a essência e a origem de toda a vida: o Espírito Santo de Deus. Todos os nossos esforços não terão sentido e serão inócuos se não tiverem a bênção de Deus e se não forem impelidos pela graça amorosa de Deus. Após receber tais bênçãos, transforma-se totalmente a vida espiritual da pessoa. O intelecto, a vontade e a memória ficam cada vez mais focalizados em Deus, assim criando espaço para um lugar de encontro no qual o amor de Deus nos é concedido. O movimento ecumênico está enraizado no reconhecimento comum de que somos seres espirituais que anseiam por conhecer a Deus, e no saber de que nossa busca espiritual é enriquecida pela vida em comunhão. 

13. O discernimento espiritual nos dá um fundamento. Ele nos proporciona a força, a convicção e a coragem para resistir às duras realidades do poder. Nesse mundo dividido e inseguro as forças da globalização e do militarismo ameaçam a própria vida. Ficando em contato com a palavra de Deus e experimentando a presença de Deus na outra pessoa somos capacitados a resistir aos desafios cotidianos do labor em prol da paz e da justiça. 

14. O discernimento espiritual também nos permite tomar distância das questões imediatas e enxergar o quadro mais amplo. Todos ficamos tão envolvidos em questões específicas, nos detalhes de nossos próprios programas, organizações, assuntos e membros, que acabamos deixando de enxergar o quadro maior. Um processo de discernimento espiritual pode recolocar-nos na trilha. 

15. Estou sugerindo que abordemos os "trabalhos" das nossas reuniões de uma forma diferente: nosso trabalho é parte do processo de discernimento espiritual e está inserido na festa da vida. Encaremos a Assembléia como uma experiência espiritual, não só como reunião de negócios que tem uma tarefa mandato estatutária a cumprir. 

16. Esta Assembléia será a primeira a utilizar procedimentos de consenso. Consenso é um esforço no sentido de construir um pensamento comum. As diferenças entre nós refletem as realidades das nossas comunidades e a vida junto às pessoas que nos cercam. Com efeito, essas diferenças nos ajudam a enxergar as multifacetadas realidades e nos levam a buscar a verdade que não é nossa, mas a verdade do Espírito Santo entre nós (1 João 5.6). É essa verdade que em última análise repousa em Deus, que nos transformará e nos libertará (João 8.23). Precisamos encarar o consenso nesses próximos dez dias não como técnica para nos ajudar a tomar decisões, mas como processo de discernimento espiritual. 

Ecumenismo que leve mais a sério a formação ecumênica e a juventude 

17. Vivemos num mundo em que proliferam igrejas cristãs e organizações afins, em que ressurge o confessionalismo, o centro do cristianismo se desloca para o sul, dolorosos conflitos internos assolam famílias eclesiais, crescem o pentecostalismo e as igrejas evangelicais, conservadoras e carismáticas. Nas principais igrejas ocidentais, que têm sido o esteio dos conselhos ecumênicos, constatamos complexos padrões de renovação e mudança entre os membros. Uma visão clara daquilo que essas igrejas possam vir a ser ainda está por vir. Todas essas tendências e incertezas têm fragilizado o movimento ecumênico. 

18. Os jovens estão crescendo para dentro dessa realidade, fazendo grande esforço na busca por orientação e sentido. O movimento ecumênico surgiu dessa mesma busca por novo sentido numa geração anterior de jovens. O legado dos que vieram antes de nós é por demais precioso para ficar guardado só para nós. Ele precisa ser transmitido para a próxima geração. Eu pleiteio que nos dediquemos com muita determinação ao encaminhamento de uma nova geração, sabendo que esta não é uma questão apenas de educação e formação, mas de confiança e participação. 

19. A formação ecumênica precisa basear-se na formação da fé. O aprendizado ecumênico é feito com base na experiência. Os jovens precisam de oportunidades para experimentar a alegria de trabalhar e orar junto com outros, de tradições diferentes e de contextos diferentes. Precisam de apoio e acompanhamento para participar de forma integral de encontros ecumênicos junto com a geração mais velha, por vezes intimidadora. Precisamos ir para onde estão os jovens – para as escolas e universidades. Precisamos estar dispostos a mudar a fim de responder às demandas dos jovens. Precisamos oferecer oportunidades para que conheçam e aprendam com outros por meio de bolsas e viagens. Numa época em que a tecnologia da informação avança o tempo todo, precisamos capacitar nossos jovens a interagirem de forma mais profunda e descobrirem maneiras criativas de usar os espaços virtuais para a formação ecumênica. 

20. Chegou a hora em que precisamos não só dar oportunidades para a gente jovem, para seu crescimento e liderança ecumênicos, mas em que precisamos aprender com os modelos inovadores e dinâmicos de relações ecumênicas que a juventude nos pode ensinar. Como família ecumênica que compreende várias gerações, precisamos adotar uma atitude humilde e escutar os jovens. Foi com jovens que nasceu o movimento ecumênico. A intuição e paixão da gente jovem de hoje é que assegurarão sua relevância e vitalidade. Sem os jovens nossa família ecumênica ficará incompleta. É agora que precisamos fomentar relações significativas e a liderança compartilhada entre as gerações. Os jovens precisam saber que são parceiros importantes e que estamos abertos para aprender com sua experiência ecumênica. 

21. Eles podem nos ajudar a todos a entender melhor para onde vamos e que tipo de resposta no é exigida. São os jovens de hoje que têm cada vez menos paciência com as divisões entre nós e que vão ao encontro de outros com valores semelhantes. Por toda a parte jovens estão sedentos de espiritualidade, ainda que às vezes rejeitem estruturas eclesiásticas. Uma das minhas colegas, já desesperada, conseguiu que sua filha de 22 anos formatasse a programação do Mutirão durante o Natal passado. Concluído o enfadonho trabalho em planilhas do Excel, a moça disse entusiasmada à mãe: "Quero ir para essa assembléia. Tem tantas oficinas diferentes e interessantes – eu não fazia idéia de que ecumenismo era algo assim. Quero me envolver com isso." As questões em que o movimento ecumênico se engaja hoje são as questões que atraem os jovens. Mas eles precisam ser convidados. E precisam ser equipados e apoiados para participar. 

22. Esperamos que esta Assembléia seja uma maravilhosa experiência de formação ecumênica para seus participantes – tanto para os jovens quanto para os "ex-jovens" – e que ela se torne parte da nossa vida normal. A festa da vida é um chamado dirigido aos jovens. A festa da vida é uma festa aberta, mas às vezes participar de uma festa aberta significa que outros precisam ceder espaço. Eu desafio todos vocês, líderes eclesiásticos aqui na Assembléia, a buscar maneiras para que seus jovens possam participar. Conclamo a todos nós – organizações ecumênicas, estruturas denominacionais, organizações ecumênicas internacionais e regionais – a que assumamos um compromisso com a juventude. Fizemos um esforço enorme para tornar esta Assembléia uma assembléia de jovens, mas conseguimos isso apenas em parte. Serão necessários o compromisso e a vontade de todos nós. 

Empenho por justiça transformadora 

23. É em Jesus Cristo que o amor e a graça de Deus transformam o mundo, a partir de dentro. Cristo se tornou pessoa humana, viveu entre nós e participou de sofrimentos e alegrias humanas (João 1.14). Em Cristo, "todos nós temos recebido da sua plenitude, e graça sobre graça" (João 1.16). Nele e por meio dele todos fomos criados e todos somos conclamados em unidade, justiça e paz. Nele todos hão de ser reconciliados, transformados, transfigurados e salvos (Colossenses 1.15-23): uma nova humanidade, novo céu e nova terra (Apocalipse 21.1). O mundo inteiro está repleto da graça de Deus no poder vivificador do Espírito Santo. 

24. O tema da Assembléia é um convite para encarar o mundo como um lugar amado por Deus e impregnado da graça de Deus. Essa ênfase na graça transformadora de Deus corresponde a uma nova ênfase na justiça transformadora em nosso trabalho, visando mudança e transformação. Aos olhos da fé, nós mesmos e este mundo podemos e precisamos ser transformados. 

25. Deus nos concedeu o dom da vida e nós dele abusamos. A ganância e sede de poder humanas criaram estruturas que fazem com que pessoas vivam na pobreza e que sistematicamente solapam a base da vida. Até o clima está ameaçado. Numa época em que há alimento suficiente para suprir a humanidade várias vezes, 852 milhões de pessoas em todo o mundo passam fome, quando em 2003 eram 842 milhões. Dia após dia 25.000 pessoas morrem de fome. A cada dia mais de 16.000 crianças morrem de causas ligadas à fome – uma a cada 5 segundos. As ameaças à vida proliferam aqui na América Latina e no mundo todo. Ao mesmo tempo em que a globalização mais do que nunca nos aproxima uns dos outros, ela aumenta as disparidades de poder e riqueza. A violência continua provocando sofrimento indizível – violência nos lares, nas ruas, nos nossos países, por vezes até nas nossas igrejas. Assimetrias de poder se evidenciam de mil maneiras – entre pessoas, entre comunidades, entre países. A ladainha de pecados e sofrimento poderia continuar a perder de vista. 

26. Alguma coisa está seriamente errada quando, no começo do século 21, a riqueza dos três indivíduos mais ricos da terra ultrapassa o PIB anual somado dos 48 países menos desenvolvidos. Argumentos políticos e racionalizações econômicas não podem contestar a fundamental imoralidade de um mundo com semelhante grau de desigualdade. 

27. Algo está seriamente errado no mundo, quando continua existindo um risco real de que armas nucleares sejam usadas durante este nosso tempo de vida. A proliferação de armas nucleares é um escândalo para toda a humanidade. São assustadoras as recentes notícias de que países estejam adquirindo tecnologia de armas nucleares. Igualmente escandaloso, entretanto, é que países na posse de vastos arsenais de armas nucleares não estejam dispostos a renunciar ao seu uso.  

28. Alguma coisa está terrivelmente errada, quando crianças são vendidas para a prostituição, quando crianças por nascer são abortadas por serem meninas e quando pessoas de determinada etnia, raça ou casta continuam sendo oprimidas. Precisamos estar espiritualmente determinados para enfrentar essas realidades. 

29. Como igrejas somos chamados a planejar em conjunto, falar em conjunto e adotar medidas em conjunto face às condições que sabemos estarem erradas neste mundo. 

30. Acreditar no chamado de Deus para a vida abundante significa, em primeiríssimo lugar, acreditar na dignidade humana e no direito dos pobres de se libertarem de condições injustas. A luta pela vida precisa estar enraizada nas experiências e ações daquelas pessoas que estão oprimidas e excluídas. Quando os pobres, como agentes sociais, começam a desaparecer atrás da "pobreza" definida pela estatística das instituições financeiras internacionais, corrompe-se toda a nossa compreensão. Pobreza se transforma num termo abstrato, divorciado da realidade do significa ser gente pobre. Precisamos lutar para que a voz dos pobres seja ouvida, que eles sejam reconhecidos como agentes de sua própria luta e continuamente procurar capacitá-los a se defender, a contar suas próprias histórias em sua própria linguagem. 

31. A festa da vida não é uma festança. É uma celebração da vida que, por vezes, será dolorosa. A festa da vida convida vocês todos e todas para a economia doméstica que rege a casa de Deus, para experimentarem a dor e o sofrimento dos outros e sentirem-se parte da frágil e imperfeita comunidade que é a humanidade. A visão dos cristãos reunidos celebrando em torno de uma mesa lembra os relatos da última ceia nos evangelhos. Ali o povo de Deus recebeu as dádivas de Deus diretamente das mãos de Jesus, repartindo um pão e um cálice. Esta é a fonte da nossa visão eucarística – uma ocasião de alegria. 

32. Mesmo assim, naquela ocasião os discípulos perceberam que algo estava faltando. Faltava confiança recíproca, havia uma profecia de traição, uma convicção de que algo estava terrivelmente errado. Quando Jesus confirmou que um deles o trairia, a reação espontânea de cada um foi "Porventura sou eu, Senhor?" Esta pergunta não foi respondida diretamente – pois embora onze dentre os doze não o traíssem, todos o negariam. No mundo de hoje constatamos que a nossa celebração de estarmos juntos também está marcada por contradições, por falta de confiança mútua, pelo insucesso em corresponder ao chamado do evangelho. 

Porventura sou eu, Senhor? Porventura seremos nós? Ensina-nos a orar "Deus, em tua graça, transforma o mundo." 

33. Como parte da humanidade precisamos perguntar constantemente por que o mundo está uma bagunça. Quantas vezes nos calamos ou simplesmente culpamos os outros, deixando de reconhecer nossa própria responsabilidade de uns pelos outros. Precisamos passar da resignação para a indignação, para a ira justiceira ao enfrentar essas forças de negação da vida. 

34. Se queremos transformar o mundo precisamos mudar nossos paradigmas. Exemplo: hoje em dia todo mundo fala dos Estados Unidos como única superpotência do mundo. Ora, todos sabemos que as potências deste mundo e os impérios que elas constroem entram e saem do cenário da história. No final das contas – nos diz a Bíblia – eles estão assentados em pés de barro. São vulneráveis em muitos sentidos. Como podemos dizer que algum país seja uma superpotência, quando o governo nem consegue proteger sua gente do terrorismo, de desastres naturais, de doenças evitáveis? Nossos instrumentos conceituais não se prestam para entender as ambigüidades do poder. Estamos reconhecendo que o poder não se expressa apenas em diferentes formas de império. As novas tecnologias emergentes, em rápido desenvolvimento, são ferramentas poderosíssimas, com enorme impacto potencial sobre as pessoas e a natureza. 

35. Diante dessas enormes desigualdades, inclusive no acesso a diferentes instrumentos de poder, vem ao caso em que parte do mundo vivemos. Nossas igrejas e seu posicionamento frente a questões de justiça econômica e muitos outros desafios éticos muitas vezes refletem as realidades que as cercam e que têm impacto sobre a vida dos seus membros. Algumas igrejas tendem a enxergar a atual fase de globalização econômica como continuação de 500 anos de opressão pelo colonialismo e pela sucessão de impérios. Outras enfatizam a mudança e descontinuidade com base na sua experiência do panorama político em rápida mudança. Essas diferentes perspectivas não podem ser facilmente conciliadas. Precisamos continuar pelejando com essas tensões, porque elas nos ajudam a enxergar com mais clareza as realidades ao nosso redor e a identificar os diferentes pontos de abordagem tanto para a incidência política por uma causa como para o diálogo. 

36. Nesta Assembléia estamos celebrando a conclusão da primeira metade da Década para a Superação da Violência. O objetivo da DSV não é tanto erradicar a violência quanto superar o espírito, a lógica e a prática da violência mediante empenho ativo pela reconciliação e paz. Esta é uma tarefa ecumênica porque, como estamos aprendendo, a prevenção da violência não pode ser alcançada por qualquer grupo específico. A prevenção e superação da violência precisa ser feita em colaboração conjunta entre as igrejas e em cooperação com instituições governamentais e civis, e também com iniciativas de base.

37. Na segunda metade da Década, várias questões terão que ser consideradas se quisermos permanecer realistas sem perder a esperança.

38. Em primeiro lugar, a globalização é uma realidade em todos os níveis, não só no econômico. O terrorismo parece formar uma rede global, como também a guerra ao terrorismo. As conseqüências disso afetam as pessoas em suas atividades e em sua dignidade quase que por toda a parte. Por isso precisamos levar em consideração a globalização e suas numerosas implicações ao planejar nossas ações conjuntas visando proclamar as boas novas da paz.

39. Em segundo lugar, o diálogo e a cooperação inter-religiosa são importantes e indispensáveis no processo de superação da violência, de busca da paz e do empenho pela reconciliação. Igrejas e adeptos de todos os tipos de religião reconhecem o imperativo da ação inter-religiosa ao responder às urgentes necessidades e preocupações das sociedades em que vivem. Um número cada vez maior de pessoas considera a ação inter-religiosa um elemento integrante da tarefa ecumênica. Muitos, hoje, têm a visão de que a ecumene de Deus inclui não só os cristãos, mas as pessoas de todas as religiões vivas.  

40. Muitas vezes se recorre ao diálogo para ajudar a resolver conflitos com conotação religiosa e que parecem condicionados pela linguagem religiosa. Entretanto, quando pessoas de religiões diferentes estabelecem contato sem grande alarido, num paciente diálogo em tempos de paz, isto pode evitar que a religião seja usada como arma em caso de conflito. Contatos por sobre linhas divisórias numa comunidade podem revelar-se a mais preciosa ferramenta para a construção da paz. 

41. Em terceiro lugar, a espiritualidade contribui decisivamente para a superação da violência e a construção da paz. Acredito que a oração e a contemplação conjuntas constituem a principal disciplina para a superação da violência. A prática conjunta dessa disciplina espiritual é um desafio atual para o nosso convívio. Precisamos criar espaços para essa prática, a fim de que inspire e molde nossas ações individuais e conjuntas.

42. No tocante à espiritualidade, sou muito grato a nossos irmãos e irmãs ortodoxas por ajudarem o movimento ecumênico a dar maior reconhecimento às dimensões terra e natureza. Nossa espiritualidade ficará privada de uma dimensão crucial se não incluir o entendimento de que somos parte da Criação bem como co-criadores, numa relação estreita com a terra de Deus e tudo que a preenche. 

43. O tema da 9ª Assembléia – Deus, em tua graça, para uma transforma o mundo – me lembra muito o tema da 1ª Assembléia, de 1948 em Amsterdã: A desordem do ser humano e o propósito de Deus. O tema da Assembléia de Amsterdã refletia tanto o passado violento quanto as novas esperanças da época. As conquistas coloniais das nações européias haviam alcançado os mais remotos cantos do mundo – configurado pelo fato de o sol jamais se pôr no Império Britânico. As próprias nações européias haviam-se levantado umas contra as outras nas assim chamadas 1ª e 2ª guerras mundiais. Com o desenvolvimento e a utilização da bomba atômica, a humanidade havia adquirido a terrível capacidade de destruir a vida neste planeta. A questão vital do novo tempo era se o futuro de um mundo que havia mudado seria o propósito de Deus para o tecido da vida, ou se haveria de prevalecer a desordem humana, com a vida ameaçada e bilhões sofrendo as agruras. 

44. A Assembléia de Amsterdã teve a ousadia de falar de um "propósito de Deus". Naquela época difícil, esta era uma afirmação ética por excelência. O tema alertava as igrejas e o mundo de que, quando Deus criou o mundo, este era bom. Havia razões para se engajar pela justiça e paz. Havia razões para se empenhar por uma sociedade responsável apesar do pecado humano e da sede de poder. Havia não só a esperança, mas também o imperativo ético de se estabelecer uma nova Organização das Nações Unidas, que proporcionasse uma base para a paz, os direitos humanos e o desenvolvimento para todos. 

45. O tema da Assembléia de Amsterdã refletia certo otimismo de que uma liderança responsável e consciente do propósito de Deus haveria de corrigir a desordem nas sociedades humanas. De alguma forma ainda não estava quebrada a suposição básica da era cristã de que o progresso histórico conduziria por si próprio a um mundo unificado por uma poderosa civilização cristã. Esse otimismo muitas vezes não se dava conta das suas origens contextuais na Europa e na América do Norte, nem de suas conotações coloniais e imperialistas; mesmo assim ele era alimentado pelo rápido desenvolvimento das novas tecnologias, que eram a ponta de lança do poder econômico, político e militar. 

46. Assim como em Amsterdã, nós também nos encontramos no limiar de uma nova era, conscientes do abismo existente entre a realidade atual e a vontade de Deus para a humanidade. Nos dias que antecederam a Assembléia de Amsterdã o mundo estava na iminência de um desastre de origem humana; nos dias que antecedem a Assembléia de Porto Alegre o mundo se acha na iminência de desastres aparentemente naturais. De acordo com o propósito de Deus, a natureza tem em si uma capacidade auto-reguladora que não permite a destruição de toda a vida sobre a terra. Só que, impelidos pela insaciável sede de auto-engrandecimento, os seres humanos têm interferido na ordem natural desenhada por Deus a ponto de desencadear desastres naturais capazes de aniquilar toda a vida, inclusive a humanidade. 

47. Hoje estamos muito mais conscientes de que a crise com a qual nos confrontamos é muito mais profunda e se manifesta muito além da injustiça e da guerra entre seres humanos, afetando a vida toda. Lembro especialmente o desafio que a mudança climática representa para este planeta e seus habitantes. Da mesma forma como as armas atômicas modificaram a própria maneira como pensávamos sobre a vida, também o potencial de consideráveis mudanças climáticas ameaça a vida como a conhecemos. 

48. A mudança climática é a mais séria ameaça que hoje paira sobre a humanidade. Não se trata de um problema para o futuro. Conseqüências graves já estão sendo sentidas por milhões de pessoas. Podemos evitar a mudança catastrófica do clima – ao menos sabemos o suficiente para reduzir o grau de mudança climática induzida pelos seres humanos – se encontrarmos maneiras eficientes de combinar a voz das igrejas com outras que podem fazer diferença. Precisamos conclamar todas as igrejas cristãs a que falem ao mundo com uma só voz sobre a ameaça da mudança climática. 

49. O mundo dilacerado precisa de uma igreja que vive como um só corpo de Cristo. O arcebispo Desmond Tutu disse certa vez: “Apartheid é algo demasiado forte para uma igreja dividida.” E eu digo que este planeta, onde a vida está ameaçada, precisa de uma igreja que vive a unidade na diversidade, como um sinal e um aperitivo da comunhão que Deus quer se torne realidade – a divina economia doméstica da vida, a terra habitada, toda a oikoumene. Mesmo que nossas diferenças por vezes nos dividam, no fundo do coração sabemos muito bem que pertencemos uns aos outros. Cristo quer que sejamos um. Somos criados como uma humanidade e uma só comunidade na terra, pela graça de Deus. 

Foco sobre a África 

50. Juntamente com a Década para a Superação da Violência, o Foco sobre a África foi um mandato importante dado pela 8ª Assembléia. Em resposta a uma solicitação do plenário africano na Assembléia de Harare, o CMI se comprometeu a acompanhar as igrejas e o povo da África em sua jornada de esperança por uma África melhor. Nos anos desde então o Foco Ecumênico sobre a África constituiu o referencial para o trabalho programático coordenado nas áreas de mulheres e jovens; construção da paz; governança e direitos humanos; reconstrução; HIV/AIDS; pessoas portadoras de deficiência; educação teológica e formação ecumênica; relações inter-religiosas; relações eclesiais e ecumênicas e justiça econômica. (O resultado completo encontra-se no relatório oficial De Harare a Porto Alegre.) Em nosso engajamento ecumênico com a África nesses últimos sete anos também aprendemos a escutar as igrejas africanas e o povo da África no tocante à situação do continente: dores e clamores tanto quanto regozijo e esperança. 

51. Aquilo que aprendemos em nossa experiência com o Foco Ecumênico sobre a África sugere que a superação da pobreza na África, assunto que deveria ter alta prioridade em nosso acompanhamento ecumênico futuro, terá que atacar duas causas fundamentais: uma sistêmica e estrutural, outra de natureza ética e política. No aspecto sistêmico, quatro fatores comprometem em seu conjunto a suficiência alimentar, que é um pré-requisito para superar a pobreza. As políticas econômicas são desfavoráveis ao investimento na agricultura e ao desenvolvimento das comunidades rurais. A migração para as cidades continua a esvaziar as áreas rurais de jovens instruídos e sadios que ajudam a compor os recursos humanos fundamentais para a transformação rural. O terceiro fator é a violência, onde se inclui a guerra civil e a violência sem sentido nas relações pessoais em nível doméstico e comunitário. O quarto fator e também o mais recente é HIV/AIDS na África sub-saariana. Para que a ajuda tenha algum efeito sobre a pobreza na África, ela precisa estar integrada e não isolada de uma abordagem holística e abrangente que enfrente todos esses fatores. 

52. É possível formular e implementar boas políticas de desenvolvimento. Igualmente possível é aumentar a ajuda financeira estrangeira para a África. Também é possível fornecer mecanismos para boa governança. Só que a experiência até agora tem mostrado que a superação da pobreza e a implementação da transformação social envolvem mais do que uma abordagem mecanicista do desenvolvimento sustentável. Um ingrediente vital que está faltando é a vontade moral por parte da liderança africana. Já por tempo em demasia os líderes africanos aceitaram o inaceitável e toleraram o intolerável. 

53. Aos poucos o afro-pessimismo está sendo substituído por reservado otimismo por parte das igrejas africanas e do povo africano. A transformação da Organização para a Unidade Africana em União Africana, a criação de novas parcerias no desenvolvimento da África, a atual transformação da Conferência Pan-Africana de Igrejas num instrumento ecumênico estratégico, iniciativas de paz por parte de mulheres em Serra Leoa e no Sudão e a recente eleição da primeira presidente mulher na África, Sra. Ellen Johnson-Sirleaf, como presidente da Libéria, são sinais de esperança. Nos últimos sete anos os países africanos em sua maioria passaram de ditaduras com partido único para democracias parlamentares. 

54. Em última análise, porém, a África continua sendo um continente paradoxal: a África é extremamente rica, porém repleta de gente extremamente pobre. Não há dúvida de que o mundo lá fora, onde se inclui o movimento ecumênico, tem acompanhado a África de muitas maneiras diferentes. Uma delas é fornecendo ajuda. Nos últimos trinta anos a assombrosa quantia de 330 bilhões de dólares foi canalizada para a África. Então, por que a África se encontra na precária situação atual? Uma coisa que observamos é a seguinte: só ajuda financeira não é a solução para superar a pobreza na África; ela facilmente pode ser mal planejada, mal direcionada, mal regulada ou mal aplicada. Para vencer a pobreza na África serão necessários um nível e uma profundidade de ira, de fato de uma indignação justiceira semelhante àquela que produziu o espírito do pan-africanismo na luta contra o colonialismo e o apartheid. Os africanos no continente e a diáspora africana terão de se reunir novamente sob a rubrica de uma espécie de africana global para dizer: desse jeito não dá para continuar, porque o que está em jogo é o cerne do que significa ser africano: a alma africana! É isso que exige mais do que ajuda material. 

É tudo uma questão de relacionamento 

55. Por que será tão difícil superar o que nos separa? Por que continuamos deficientes no nosso relacionamento com outros seres humanos, embora agora tenhamos avanços tecnológicos que chegam a desafiar-nos a imaginação? Não dá para acreditar que sejamos capazes de manipular genes e mandar espaçonaves para os longínquos limites do nosso sistema solar enquanto continuamos envolvidos em guerras! 

56. Existe um elemento comum nas ameaças sociais, econômicas e ambientais à vida com que nos confrontamos e a ambígua experiência da interdependência cada vez maior, a qual acarreta maior fragmentação e inimizade em vez de cooperação melhor. Esta situação é explorada por aqueles cujo poder se nutre de nossos medos e ansiedades. Temores e ansiedades nos impedem de dar um testemunho comum. Eles nos jogam uns contra os outros, minam a confiança que depositamos uns nos outros e nos forçam a passarmos para a defensiva e a nos fecharmos para as realidades ao nosso redor. 

57. Os maiores desafios que hoje enfrentamos parecem-me convergir todos, em sua raiz, para a falta de capacidade humana de se relacionar um com o outro, com a Criação e com Deus tal como veríamos. Quando falamos das nossas realidades sociais, das questões de poder e política e até mesmo sobre as realidades no seio das igrejas e entre elas, podemos perceber que a qualidade das nossas relações tem sofrido consideravelmente não só hoje em dia, mas desde décadas e séculos.  

58. Vivemos num mundo diversificado, que apresenta diferenças étnicas, raciais, lingüísticas, culturais e religiosas. A migração das pessoas fez com que quase todas as nossas sociedades se tenham tornado multiculturais. Mesmo assim a nossa capacidade de nos relacionar uns com os outros está tristemente limitada. Fazemos ataques verbais e acusamos a quem é diferente de nós. Demasiadas vezes temos medo de recém-chegados. Traçamos divisórias entre nós e outros de uma maneira que machuca. O racismo continua levantando sua horrorosa cabeça; a xenofobia e a islamofobia estão se alastrando; o anti-semitismo ressurgiu onde se achava que estivesse extinto faz muitos anos. Entretanto os pontos que temos em comum e que nos unem têm muito mais peso que aqueles que nos dividem. Todos somos capazes de amar, todos veneramos nossas famílias, todos dependemos do meio ambiente, todos temos um interesse legítimo em transformar este planeta num lugar de amor e hospitalidade. 

59. Se nos concentrarmos na nossa capacidade de nos relacionar uns com os outros, com a Criação e com Deus, vamos dar-nos conta de que nossos desafios éticos têm uma dimensão profundamente espiritual, e vice-versa. Não podemos mais ficar separando eclesiologia e ética, a busca pela unidade da igreja da busca pela unidade da humanidade. Essas coisas estão intimamente interligadas. Aquilo que agrava nossas divisões e a desigualdade entre nós e aquilo que pode contribuir para a cura e a reconciliação têm, na verdade, um centro comum. 

60. Isto não nos deveria causar surpresa. A realidade do pecado reflete a realidade de relações rompidas com Deus, com o semelhante e com a Criação. A Bíblia ensina que o pecado é, antes de mais nada, uma questão de relações comprometidas em todas essas três dimensões da nossa existência. O pecado é real. O pecado tem suas expressões sociais e práticas que engendram morte em vez de vida e solapam nossa comunhão. É essa realidade que é diretamente visa, redimida e transformada pela graça de Deus. Ao pagar o preço do pecado humano em sua morte na cruz, Cristo restaura a vida, cura e reconcilia relações distorcidas pelo pecado. Celebramos esse mistério da vida renovada em Cristo na eucaristia, que nos transforma como membros do corpo uno de Cristo. No nosso cotidiano, essa liturgia da eucaristia continua na cura de relações, ao compartilharmos vida com vida. 

61. A vida que Deus nos concede e que nos sustenta a todos é o alimento que cria uma nova comunidade de compartilhamento, uma comunidade justificada e reconciliada com Deus pela graça de Deus. A festa da vida é uma festa com entrada franca. Ela está aberta para todos que chegam e constrói comunidade por meio de relações. Para os cristãos, o ágape, aquela refeição de comunhão que muitas vezes acompanha o culto eucarístico, é uma celebração dessa comunidade. Também ele antecipa o Reino que está por vir. 

62. A melhor forma de nos equiparmos para promover relações humanas no mundo ao nosso redor será aprendermos, como igrejas, a compartilhar uma com a outra todas as dádivas da graça que recebemos de Deus. Uma causa formidável da nossa falta de união como igrejas está na nossa incapacidade de praticar esse autêntico compartilhamento das dádivas. Uma forma de enriquecer nossa comunhão de compartilhamento consiste em transformar a maneira de nos relacionarmos umas com as outras como igrejas e organizações ecumênicas – uma espécie de compartilhamento horizontal das dádivas da graça. Hoje mais do que nunca precisamos umas das outras como igrejas. Precisamos encontrar novas maneiras de aprofundar nossa comunhão como igrejas dentro da comunhão do CMI. É imperativo encontrar um novo paradigma de ser igreja uma para a outra no trabalho em prol das relações ecumênicas e eclesiais no século 21. Isto é necessário para o auto-empoderamento das igrejas, não em função de si mesmas, mas em prol umas das outras e a fim de alcançar a capacidade de contribuir para o mundo, que está com tremenda necessidade de aprender a construir melhores formas de relacionamento. Mas como igrejas também podemos aprender de muitas comunidades que desenvolveram formas de compartilhar a riqueza que representam, apesar de serem o que atualmente são. 

63. Nas minhas viagens a diferentes partes do mundo tenho observado que em muitos lugares o culto continua numa refeição de ágape conjunta – uma celebração da vida compartilhada para todos. Lembro-me de mulheres indígenas pobres na Bolívia compartilharem o pouco que tinham, após o culto, preparando uma refeição festiva para todos, baseada nas diferentes espécies de batatas que haviam trazido para a igreja. Ali naquela comunidade carente havia uma radiante alegria comunitária no encontro sincero da vida com a vida. Ao compartilhar o pouco que tinham, as mulheres não ficavam mais pobres do que antes; ao invés, cada uma delas ficava mais feliz pela outra porque nenhuma voltava para casa com fome. O milagre de alimentar 5000 pessoas (sem contar mulheres e crianças!) é realidade diária entre os pobres. É dessa maneira que continuam sobrevivendo nesse mundo, d’outra forma tão cruel e inclemente. 

64. O carnaval aqui no Brasil é exatamente essa celebração exuberante da vida a se esparramar sobre o cenário de pobreza e marginalização. Comunidades carentes continuam alimentando a criatividade e capacidade de celebrar a vida em conjunto em meio à situação precária e desesperada que enfrentam. Essas celebrações da vida entre os pobres também me lembram de todas as outras parábolas de convite para a mesa festiva, narradas de diversas maneiras por Mateus, Marcos, Lucas e João. Comum a todas elas é que o anfitrião fica profundamente desapontado com a resposta negativa dos que originalmente tinham sido convidados. Num ato de justiça transformadora ele estende o convite aos marginais e moradores de rua. O sermão de Jesus na sinagoga em Nazaré aborda a vida deles: as boas novas para os pobres (Lucas 4.18s). Eles querem celebrar a nova e empoderada comunidade em Cristo num culto conjunto em canto e oração. Querem experimentar o poder terapêutico do evangelho em sua vida cotidiana. Uma coisa é certa: querem celebrar com Deus quando os padrões usuais de exclusão e marginalização estão virados de cabeça para baixo! 

65. A festa da vida nos convida a dar uma nova olhada na qualidade das nossas relações e a colocar essas relações no centro do movimento ecumênico. 

66. A declaração política Compreensão e Visão Comuns adotada na Assembléia de Harare conclamava o CMI e seus membros a aprofundarem suas relações recíprocas. Até certo ponto isto tem ocorrido, como no importante trabalho da Comissão Especial sobre a Participação Ortodoxa no Conselho Mundial de Igrejas. Visitas pastorais e "cartas vivas" têm dado às igrejas oportunidade de expressar solidariedade e compaixão umas com as outras em diferentes situações de dificuldade. Precisamos aprofundar nossa responsabilidade recíproca e praticá-la de forma concreta e visível. 

67. A declaração Compreensão e Visão Comuns também reconheceu que o movimento ecumênico abrange mais do que o Conselho Mundial de Igrejas e desafiou o CMI a desenvolver suas relações com outras instituições cristãs, notadamente as igrejas evangelicais e pentecostais, além de outras organizações ecumênicas. 

68. Nossa relação com a Igreja Católica Romana vem amadurecendo ao longo dos anos. Embora o CMI e a Igreja Católica Romana sejam instituições muito diferentes, ambas têm profundo compromisso com o empreendimento ecumênico. Ao longo dos últimos 40 anos temos cooperado proficuamente por meio do Grupo de Trabalho Conjunto. O CMI é grato pelo envolvimento direto da Igreja Católica Romana em nosso trabalho visando superar as divisões teológicas, históricas e sociais entre as igrejas; na missão; na formação teológica; no testemunho pela justiça em nosso mundo; no diálogo inter-religioso e em outros aspectos. 

69. uiçá por vezes tenha havido expectativas pouco realistas, e isso de ambos os lados. Mas sempre temos tido a disposição para esclarecer as questões, a fim de retomar a busca conjunta pelo tipo de unidade que seja a vontade de Cristo para a sua igreja. 

70. Existe uma tensão natural entre os esforços por aprofundamento e aqueles visando a ampliação da comunhão de igrejas que formam o Conselho Mundial. Esta Assembléia dará oportunidade para novamente atentar para a qualidade das relações no seio da comunhão, explorando em conjunto o que significa estar em comunhão, visando maior unidade e desafiando uns aos outros a manifestar essa unidade de modo mais profundo. A Assembléia também nos dará oportunidade de reafirmar nossa disposição para ampliar essa comunhão por meio do diálogo, da interação e cooperação com irmãs e irmãos em Cristo além do íntimo círculo de membros do Conselho Mundial de Igrejas. Um exemplo concreto é o Fórum Cristão Global, que reúne seguidores de Jesus Cristo de um leque jamais visto de tradições e expressões. O Conselho Mundial de Igrejas tem o compromisso de fazer tudo que esteja em nosso alcance para continuar a facilitar esse processo, que até agora tem sido muito encorajador. 

71. Como sabemos, existe uma tensão natural entre as diferentes expressões institucionais do movimento ecumênico. Todas as organizações ecumênicas atualmente estão às voltas com a questão de como reagir diante das mudanças no panorama eclesial e ecumênico. É por isso que começamos a lidar em conjunto com os principais desafios ao ecumenismo no século 21, processo este que extrapola o estreito foco institucional que poderia ficar sugerido pelo termo "reconfiguração". Existe uma necessidade constante de formular em conjunto a base teológica e espiritual do nosso compromisso ecumênico comum. Muitos agentes do movimento ecumênico ressaltam a necessidade de definir em conjunto a visão ecumênica comum, não só "a visão comum do CMI". Espero que esta Assembléia afirme o papel do Conselho no seio do movimento ecumênico e encoraje o Conselho a se transformar na força-líder, no agente facilitador dessa importante tarefa ecumênica ao servir ao movimento ecumênico no século 21. 

72. Além disso, existe alguma tensão no que se refere às relações inter-religiosas. Muitas pessoas indagam se isto é parte integral da busca ecumênica pela unidade cristã.Todos reconhecemos que vivemos num mundo multi-religioso e que precisamos aprender mais sobre como nos relacionar com pessoas de outras religiões, particularmente em nível comunitário. Mais ainda: ao abordarmos uma ampla gama de problemas mundiais – não só aqueles que envolvem conflitos entre pessoas de religiões diferentes – precisamos aprender a nos relacionar, aprender sobre as maneiras como crêem as pessoas de outra religião, como elas encaram o mundo, e aprender a atuar em conjunto para o bem das nossas comunidades e do mundo. A religião está sendo cada vez mais reconhecida como importante fator nas relações internacionais e precisamos estabelecer relações com outras comunidades religiosas em todos os níveis. Isto foi afirmado pela Conferência sobre o Momento Crítico no Diálogo Religioso que o Conselho organizou em junho passado. Esse encontro reuniu participantes de todas as principais religiões globais de todas as partes do mundo. Uma das principais recomendações feitas pela conferência foi a de solicitar ao CMI a criação de mecanismos que levassem os líderes religiosos do mundo a juntos abordarem os problemas enfrentados pela comunidade humana hoje em dia. As relações inter-religiosas deveriam receber alta prioridade no próximo período, e estamos esperando que esta Assembléia dê orientações sobre as melhores formas de alcançar esse objetivo. 

73. A festa da vida para a qual todos estamos convidados é também um convite para que saiamos ao encontro daqueles que conhecemos e daqueles que ainda não conhecemos. 

74. Há muito que reconhecemos que todo o trabalho programático do CMI está fundado sobre relações; mesmo assim a realidade é que equipes e pessoas distintas estão responsáveis pelo programa, por um lado, e pelas relações, por outro. Em nosso trabalho depois desta Assembléia espero que haja uma abordagem mais integrada e interativa do programa e das relações, onde nossos programas fortaleçam a qualidade das nossas relações e nossos membros se sintam mais donos dos programas. 

Formas criativas de trabalho 

75. Ao iniciarmos esta Assembléia, espero e rezo que celebremos esta extraordinária oportunidade que nos é dada como momento de compartilhar uns com os outros aquilo que trazemos para este lugar e celebrarmos juntos a festa da vida. Esperamos que as plenárias da Assembléia, a série de diálogos ecumênicos e os eventos do Mutirão nos ajudem a identificar os principais desafios e prioridades que as igrejas deveriam abordar no mundo inteiro por meio do seu instrumento comum, que é o Conselho Mundial de Igrejas. Esperamos que o Comitê Orientador do Programa chegue a uma agenda relevante e viável para transformações, e que o Comitê de Estratégias dê novos impulsos às nossas relações. Além disso nos concentraremos na adoção de um plano de trabalho e programa para o culto ecumênico que seja integralmente abraçado como seu e implementado pelas igrejas-membro. A gestão responsável do trabalho do Conselho adotará um foco estratégico. Ao facilitar o manejo responsável dos recursos que nos são confiados, asseguraremos que os recursos humanos, financeiros e físicos sejam administrados como parte integrante do todo. Diversos eventos de pré-assembléia já enfocaram as contribuições daqueles que muitas vezes estão na periferia do movimento ecumênico: jovens, povos indígenas, dalits, mulheres e pessoas com deficiência. Seu desafio e suas perspectivas continuam sendo importante orientação não só para a crítica da injustiça e exclusão, mas para novas e criativas formas de se compreender a transformação. O fato de nos reunirmos na América Latina moldará nossas discussões e esperamos poder aprofundar nossa compreensão deste continente por meio da celebração e plenária latino-americana. 

76. Nesta que tem sido descrita como sendo “a era da informação", nosso movimento ecumênico é desafiado a proclamar a Palavra eterna de Deus e interpretar seu sentido para um leque muito variado de culturas e tecnologias. Ao buscarmos formas criativas de comunicação continuamos no compromisso de contar sobre o amor de Jesus, de promover a confiança e apoiar o crescimento de comunidades de base, sejam elas concretas, sejam virtuais, nas quais a comunhão espiritual possa amadurecer e as vidas possam ser transformadas. 

77. O contexto atual nos desafia a repensar as seguintes quatro ênfases do movimento ecumênico. Elas não deveriam ser encaradas como proposta de uma nova estrutura do programa do CMI, uma vez que há diferentes maneiras de tratá-las. 

78. Fé e espiritualidade: A questão central da nossa época, conforme indiquei nas minhas observações, é a questão da fé e a presença de Cristo na outra pessoa. Isto está na base da nossa compreensão de unidade e missão. A fé precisa ocupar um lugar central na nossa vida em conjunto e constituir o fundamento da nossa visão e engajamento ecumênicos. Como tornaremos visível e efetiva a unidade que nos está dada em Cristo? 

79. Quais são as implicações da fé cristã no século 21? Essa questão é relevante para as igrejas do norte e do oriente bem como para as igrejas no hemisfério sul. Não é mais realista a expectativa de que a formação da fé cristã ocorra nas famílias cristãs, nas igrejas e escolas dominicais, nas escolas ou mesmo na sociedade de um modo geral. É preciso fazer um esforço consciente para assegurar que fatos básicos sobre a fé cristã sejam entendidos por aqueles que professam o cristianismo. Ao mesmo tempo é necessário entender o cristianismo emergente no século 21, porque o cristianismo do hemisfério sul não é mero transplante do cristianismo dos séculos anteriores. Manifestações novas de não-denominacionalismo e pós-denominacionalismo estão aumentando por toda a parte no mundo. Nossa autocompreensão cristã numa sociedade cada vez mais multi-religiosa ganhará em evidência no próximo período. Isto tudo nos desafia a enxergar nossa fé numa perspectiva radicalmente nova. Poderíamos fazer isso se considerássemos o cristianismo uma realidade global, isto é, se o encarássemos de uma nova maneira, e não só com os olhos de uma região ou perspectiva teológica específica. O que tudo isso nos desafia a fazer é enxergar nossa fé numa perspectiva radicalmente nova. Qual deverá ser o nosso posicionamento teológico diante da pobreza e privação de tantos, da afluência de outros e da ligação entre essas duas realidades? Todos esses fenômenos têm implicações para a maneira como praticamos e ensinamos teologia, como fazemos missão e como damos testemunho no século 21. 

80. Numa época em que questões de identidade marcam as relações políticas, sociais e interpessoais, o diálogo e a cooperação entre as religiões se tornam ainda mais imperativos. Quanto mais firmemente estivermos baseados na nossa fé cristã, e quanto mais falarmos a uma só voz, mais eficiente será a nossa participação à mesa do diálogo inter-religioso. 

81. Formação ecumênica: esta é uma daquelas áreas que emerge com muita força, não só como necessidade ou prioridade, mas como verdadeiro imperativo ecumênico, como fator determinante que poderá ter influência decisiva sobre o movimento ecumênico ao longo do século 21. 

82. Em muitas igrejas-membro uma nova geração de líderes – embora comprometida com princípios ecumênicos – parece não estar plenamente informada sobre o rico legado e experiência do movimento ecumênico moderno. Neste momento crucial de transição entre gerações, as lideranças deveriam ter oportunidade para tirar proveito desse corpo de conhecimento e sabedoria. 

83. Se é que os cristãos de hoje, incluindo lideranças e quadros da igreja, devem participar criativa e responsavelmente na busca por unidade, alcançando uma integração cada vez maior, é preciso oferecer meios adequados para a formação ecumênica, a fim de ensejar contribuições melhores e mais ricas para a nossa vida conjunta. Precisamos juntar recursos humanos e material educacional das diferentes igrejas e organizações ecumênicas. 

84. Se observarmos o Instituto Ecumênico em Bossey, Suíça, que é um modelo de formação ecumênica, poderemos descobrir mais dois desafios. Em primeiro lugar, nos últimos anos, evangelicais e pentecostais têm manifestado claro interesse em cursos e seminários ecumênicos, inclusive em programas de pós-graduação. Em segundo lugar, jovens têm insistido em que haja mais encontros e seminários inter-religiosos. Ambas essas tendências são sugestivas do caminho para a frente e uma razão de esperança. 

85. Justiça Transformadora: Em resposta àqueles que sofrem as conseqüências da injustiça que divide o mundo entre pobreza e riqueza, é necessário trabalhar na área da justiça transformadora, que envolve o cuidado pela Criação, a transformação de estruturas econômicas e sociais injustas, uma clara voz profética na defesa da causa global e na diaconia profética. 

86. No período de Harare para cá, o CMI tem explorado o conceito de justiça transformadora principalmente na superação do racismo. Em vez da noção mais em voga de "justiça restauradora", o conceito de justiça transformadora se baseia na compreensão de que não é possível simplesmente reinstalar, restabelecer, fazer voltar aquilo que foi perdido. Séculos de injustiça de todas as formas nunca podem ser apagados, quer histórica, quer coletiva, quer individualmente. As vidas e culturas dos povos, seus idiomas, estilos de vida, culto e espiritualidade não podem voltar a ser o que eram. Justiça transformadora lida com o passado no presente. Seu objetivo é superar a opressão e dominação de modo a alcançar a cura, reconciliação e o restabelecimento das relações entre as pessoas ("corrigir o que está errado"). 

87. A minha visão do futuro é de que continuaremos a explorar isto à medida em que enfrentarmos as questões de justiça e diaconia. Isto exigirá formas novas e criativas de lidar com a maneira como a história da missão da igreja por vezes esteve envolvida com o desmantelamento de formas tradicionais de cura e reconciliação. Aí se incluirão processos mais diretos de libertação e cura mediante encontro e diálogo entre os que perpetram a injustiça e os vitimados por ela. 

88. Isto requer uma mudança no paradigma do nosso trabalho, exige metanóia que permita a transformação de estruturas, da cultura e de valores fundamentais. Isto exigirá que redirecionemos nossos programas para mais intencionalmente construir comunidades verdadeiramente inclusivas e justas, que assegurem a diversidade onde houver interação entre a unidade e diferentes identidades, e onde os direitos e as obrigações de todos sejam plenamente respeitadas em amor e comunhão. A justiça transformadora desafia as igrejas a assumir o custoso compromisso de superar as divisões na própria vida eclesial – nossas comunidades precisam ser transformadas para viver plenamente a diversidade dos seus povos e culturas como reflexo claro da criação e imagem de Deus na humanidade. Ser igreja hoje é ser comunidades de cura, reconciliadas e reconciliadoras. 

89. Ser voz moral para o mundo: Com o reconhecimento cada vez maior do papel da religião na vida pública, temos novas oportunidades para influenciar as decisões nas políticas globais. Esse contexto mutante, com renovada ênfase no papel da religião, introduz novas perspectivas no tratamento das questões da responsabilidade social das igrejas. 

90. Ao cumprir nossa responsabilidade histórica, somos desafiados a ser uma voz moral forte e digna de crédito para o mundo: uma voz que esteja fundada na espiritualidade e por isso seja distinta e distinguível das numerosas vozes concorrentes num mundo com demasiada falta de valores éticos. 

91. Todas essas preocupações são comuns às igrejas-membro e aos parceiros ecumênicos. Espero que no futuro possamos desenvolver formas inovadoras e criativas de trabalhar, que venham a fortalecer nossas relações com as igrejas e com amplo leque de parceiros ecumênicos. Essas formas serão diferentes, dependendo dos parceiros. Por exemplo, eu gostaria de ver uma interação com as Comunhões Mundiais Cristãs, particularmente aquelas cujos membros em grande parte também integram o CMI, em nosso empenho comum pela unidade visível e em nossa disposição comum para estabelecer relações com aquelas igrejas e famílias cristãs que não participam ativamente do movimento ecumênico. Eu gostaria de ver uma relação programática mais estreita entre o CMI e as organizações ecumênicas regionais, com base nas nossas respectivas qualidades e membros. Eu gostaria de ver mais colaboração consciente com as organizações ecumênicas internacionais que muitas vezes estão atuando nas mesmas questões. Espero que as iniciativas visando novas formas de trabalho na área do desenvolvimento e da diaconia com ministérios especializados frutifiquem nos próximos meses e anos. E como já indiquei anteriormente, espero que um renovado foco sobre espiritualidade ecumênica venha a transformar o modo como trabalhamos. 

92. Entretanto gostaria de ir além dessas sugestões e renovar a proposta de que, como passo concreto, a próxima Assembléia do CMI ofereça uma plataforma comum para o movimento ecumênico mais abrangente. Se estivermos prontos para dar um passo tão significativo e concreto, em vez de várias conferências gerais e assembléias globais diferentes, organizadas pelas diversas comunhões mundiais e outras organizações, poderíamos em conjunto visualizar uma única celebração da busca pela unidade e pelo testemunho comum das igrejas cristãs. Para ser mais específico, e a título de um próximo passo mínimo a ser dado, proponho que esta Assembléia nos dê o mandato de acelerar o diálogo com a Federação Luterana Mundial e a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas para explorarmos possibilidades de organizar nossas próximas assembléias como evento conjunto. E também deveríamos convidar outras organizações cristãs mundiais para se juntar a nós nesse diálogo. 

93. Essa proposta evidentemente exige atenta consideração de muitos aspectos. Mas estou plenamente convicto de que é viável e de que o movimento ecumênico ficará mais forte com uma plataforma global comum. Esta poderia ser uma maneira de começar a planejar em conjunto, de modo que possamos falar e agir juntos com eficiência ainda maior.  

Para encerrar 

94. Caros amigos, irmãs e irmãos em Cristo, aos delegados da 9ª Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas foi confiada importante tarefa. Trata-se de uma responsabilidade plena de potencial. Em Porto Alegre somos desafiados a fazer face às brutais realidades deste mundo e a discernir os sinais dos tempos. No mesmo momento somos desafiados a orar de todo o coração "Deus, em tua graça, transforma o mundo!" E renovados pela oração, no poder do Espírito Santo, esperamos ser reenviados deste lugar como mensageiros da graça de Deus e da vontade de Deus para a transformação deste mundo, como mensageiros da esperança para nossos filhos, para nossos netos, para o futuro. 

95. A Palavra de Deus é palavra de esperança, a boa nova da transformação pela graça. Ela é a proclamação de novo céu e nova terra, onde as coisas antigas deixaram de ser. Ela é o convite de Deus para participar da festa da vida, para o regozijo na festa da vida! 

96. Queira o Espírito de Deus, ao longo desta Assembléia, acender uma chama inextinguível de esperança em nosso espírito, iluminando uma criação restaurada para o bem, revelando-nos como filhos de Deus, membros de uma única família humana e de uma única comunidade da Terra. 

97. Neste encontro, queira o Espírito de Deus despertar em nós o mais profundo anseio dos nossos antecessores no movimento ecumênico, a convicção de que existe e precisa existir uma única igreja – santa, católica e apostólica – o corpo indiviso de Cristo a serviço do mundo, unido ao redor de uma única mesa na presença do nosso Senhor vivo. 

98. Com Deus, todas as coisas são possíveis. Assim assumimos nossa responsabilidade, confiando na graça transformadora de Deus. Todos são bem-vindos à festa da vida. Vamos, então, cuidar da festa! 

Rev. Dr Samuel Kobia