Documento No. A1
PARA AÇÃO
1. Assembléias são etapas importantes em nossa caminhada ecumênica. Através de oração, meditação, apresentações, discussão e decisões, elas constituem um meio favorável de avaliar o testemunho ecumênico do Conseho Mundial de Igrejas, identificar suas futuras prioridades e estabelecer novas diretrizes. Assembléias são também oportunidades especiais para aprofundar nossa comunhão "rumo à" unidade visível da igreja. Esta 9a Assembléia ocorre em um período da história mundial em que valores estão em declínio, visões se mostram imprecisas e esperanças são abaladas; em que a injustiça aumenta e a paz é quase irrealizável; e em que violência e insegurança predominam em todas as esferas da vida humana.
"DEUS, EM TUA GRAÇA, TRANSFORMA O MUNDO"
2. Nesse mundo turbulento, voltamo-nos a Deus e oramos "Deus, em tua graça, transforma o mundo": súplica que emana dos nossos corações quebrantados; sinal de esperança que brota em meio às incertezas da vida humana; genuína expressão de fé que se manifesta no contexto das tensões e ansiedades do mundo.
3. Graça (Q'en em hebraico e Kharis em grego) é o núcleo central da revelação divina. A palavra é usada na Bíblia em sentidos variados e com múltiplas implicações. Graça é benevolência, compaixão, amor, misericórdia, dádiva e beleza manifestados através da "multiforme graça de Deus" (1 Pe 4.10) e das "benignidades do Senhor" (Is 63.7-9). As epístolas de São Paulo são consideradas, com razão, base da teologia da graça. Na Bíblia, graça tem as seguintes características fundamentais:
a) É o dom divino da "plenitude" de vida (Jo 10.10); e é também uma qualidade de vida marcada pela obediência a Deus.
b) Graça é a expressão concreta do amor de Deus (2 Co 12.7-10), que torna a vida humana forte apesar da sua fraqueza (2 Co 12.10).
c) É o poder transformador de Deus que restaura a sua imagem nos seres humanos.
d) Enquanto atributo essencial de Deus, graça refere-se tanto à transcendência quanto à imanência de Deus. Deus comunica e compartilha sua graça conosco; Deus veio a nós "cheio de graça" e "habitou entre nós" (Jo 1.14-16).
e) Graça é a vitória de Deus sobre o pecado (Rm 5.21). A criação e a salvação da humanidade são frutos da intervenção de Deus em Cristo (Rm 3.24).
f) Graça é o dom divino de justiça e paz, ou seja, expressão da misericórdia e amor de Deus para com a humanidade e do seu comprometimento ao pacto.
g) A graça de Deus é a sua reconciliação em Cristo com a humanidade (2 Co 5.17-21). Reconciliação é cura e transformação da humanidade e da criação, mediante a kenosis de Deus em Cristo (Cl 1.19-20).
h) A graça de Deus é a vinda do Reino dos céus à terra, manifestada em, e através de, Cristo. O Reino de Deus é o reinado da graça.
i) Graça suplanta a lei. É dom gratúito de Deus (Rm 3.24) dado a todas as pessoas sem discriminação. No entanto, a opção preferencial de Deus é pelas pessoas oprimidas e marginalizadas (Mt 5.1-12).
4. A percepção bíblica da graça destaca-se na teologia e na espiritualidade ortodoxa. Os seguintes aspectos são dignos de atenção:
a) A graça visa a renovar e transformar toda a humanidade e a criação; é uma nova criação. Enquanto re-criação, a graça começa com o "microcosmo", isto é, o ser humano e a comunidade humana. Humanidade e criação se inter-relacionam. A bênção de elementos da criação (água, frutos, terra, etc.) nas Igrejas Ortodoxas indica a integridade e sacralidade da criação.
b) O ato transformador de Deus torna-se realidade no evento-Cristo. A presença transformadora de Deus em nós é uma realidade contínua; é, ao mesmo tempo, um evento e um processo, existencial e escatológico. No poder do Espírito Santo, a graça de Deus torna-se uma realidade viva e vivificadora na eucaristia e através desta.
c) A ação transformadora de Deus é Trinitária: o amor de Deus Pai, a graça de nosso Senhor Jesus Cristo e a comunhão do Espírito Santo. Graça é a ação divina que abarca tudo; permeia todas as dimensões e esferas da ordem criada, e é caracterizada na teologia ortodoxa como ação cósmica. Graça é o poder onipresente e onipotente de Deus, que transforma todos os aspectos da vida humana. Ela nos vem através dos sacramentos do batismo, eucaristia e ordenação.
d) A graça de Deus faz de todos/as nós um corpo; é a fonte de nossa unidade em Cristo e do elo de nossa união mútua. Apesar das divisões mundanas, a graça de Deus, pelo poder do Espírito Santo, assegura, fortifica e protege nossa unidade, assim como a integridade e continuidade da igreja, conduzindo-a ao eschaton, à segunda vinda de Cristo na glória.
e) A graça de Deus cria comunhão entre os seres humanos e Deus. O ser humano não só é criado por Deus, mas também para Deus. O ser humano é cooperador (1 Co 3.9) de Deus e mordomo da Sua criação. A responsabilidade humana pela criação perante Deus é expressa na comunhão humanidade-Deus a qual alcança seu apogeu na theosis.
f) Aceitar a graça de Deus significa partilhá-la com outras pessoas através da evangelização e da diaconia. Nisso consiste a "liturgia após a liturgia". Responder à graça de Deus em gratidão e fidelidade exige sacrifício; implica kenosis, ou seja, martyria na vida e na morte.
5. Esforços incomensuráveis têm sido feitos através da história para transformar o mundo. Mas, todas as tentativas políticas, religiosas, econômicas, ideológicas e tecnológicas têm falhado. A mundialização, com seu novo sistema de valores, paradigmas e forças, é outra tentativa de transformar o mundo. Como cristãos, acreditamos que somente a graça de Deus é capaz de empoderar, renovar e transformar a humanidade e a criação. Durante esta Assembléia, identificaremos as implicações dessa questão para o movimento ecumênico e, em particular, para o testemunho ecumênico do Conselho Mundial de Igrejas; e isso, pela reflexão e pela oração "Deus, em tua graça, transforma o mundo". Na verdade, essa oração é o clamor dos pobres por justiça; o clamor dos enfermos por cura; o clamor dos marginalizados por libertação; o clamor da humanidade e da criação por reconciliação. Fortalecida pela graça do Espírito Santo (Mc 13.11; Jo 16.13), a igreja, enquanto comunidade transformada e transformadora, é chamada a ser testemunha de Cristo em todo o mundo, até que em Cristo todas as coisas sejam reconciliadas e toda a criação seja transformada em "um novo céu e uma nova terra" (Ap 21.1).
CONTEXTO LATINO-AMERICANO
6. Esta é a primeira Assembléia do CMI a realizar-se na América Latina. Com suas lutas e esperanças por justiça e dignidade, este continente exercerá, certamente, forte impacto em nossas deliberações e ações.
7. As sociedades latino-americanas sofrem as conseqüências de suas origens coloniais. Sociedades européias, notadamente Espanha e Portugal, impuseram seus sistemas políticos e sociais, assim como seus valores culturais, aos povos autóctones, e destruiram assim suas culturas e religiões. A autoridade e cultura opressivas do colonizador deixaram profundas cicatrizes nas sociedades latino-americanas. Pobreza, desigualdade e dependência do exterior persistem ainda apesar da transição do período colonial para a era da independência.
8. Hoje, apesar das múltiplas diferenças entre as várias sociedades latino-americanas, elas têm numerosas coisas em comum. Muitas delas foram, afetadas por distúrbios políticos, econômicos e sociais durante o século 20. Nos anos de 1970, vários países latino-americanos foram dirigidos por regimes militares, os quais violaram direitos humanos, perseguiram e assassinaram líderes políticos e comunitários, e ilegalizaram organizações políticas. Desde os anos de 1980, a maioria dos governos da região adotou estratégias econômicas inspiradas ou baseadas em princípios e doutrinas neoliberais. Durante os últimos dez anos, a maioria dos países da região sofreram graves crises econômicas e políticas que, por sua vez, geraram distúrbios e protestos sociais. Ao longo desse período, os povos latino-americanos lutaram em favor da vida, da dignidade e dos direitos humanos. A mundialização teve impacto dramático na condição política, social e cultural das sociedades da região. Devido à mundialização, os povos das região perderam o controle dos seus recursos naturais e de suas atividades econômicas, e o fosso entre ricos e pobres se aprofundou. Recentemente, vários países elegeram governantes voltados a estratégias de desenvolvimento que não se subordinam às políticas de instituições econômicas internacionais (FMI, Banco Mundial, etc.).
9. Muitas igrejas têm sido, e continuam sendo, atentas a essas mudanças, desenvolvimentos e desafios. Elas acreditam que seu papel pastoral e profético é participar ativamente na construção da nação. Esse envolvimento das igrejas na construção da nação as têm ajudado a entender a missão de Deus num contexto novo e de uma maneira nova. Fé é uma realidade essencial na vida cotidiana dos povos da América Latina. Espiritualidade, zelo evangelizador e engajamento ecumênico são fortemente presentes nas igrejas. O crescimento de igrejas não-institucionais e de movimentos carismáticos é também uma característica importante do cristianismo na América Latina.
10. O tema da Assembléia tem significado especial neste momento da história deste continente. Através da sessão especial sobre a América Latina, assim como por meio dos cultos nas comunidades locais e do contato cotidiano com as igrejas e o povo, teremos oportunidade de aprender mais sobre o continente em geral e sobre o Brasil em particular.
UM PERÍODO DE DISTÚRBIOS E DE TENACIDADE
11. Os últimos sete anos foram um período complexo e frágil da história mundial. O relatório De Harare a Porto Alegre (1998-2006) cobre os principais desenvolvimentos e aspectos significativos do testemunho do CMI durante esse período. Ele descreve resumidamente as realizações e as lições aprendidas durante nossa caminhada desde a 8a Assembléia até a 9a. Apenso ao relatório, encontra-se também em nossa pasta a Avaliação programática pré-assembléia que consiste em uma apreciação crítica, abrangente e objetiva do trabalho do CMI em seus vários aspectos e expressões.
12. Olhando retrospectivamente o período que deixamos atrás, podemos perguntar o quanto fomos capazes de avançar rumo aos nossos objetivos ecumênicos. Na verdade, não é fácil descrever exaustivamente tudo o que ocorreu nessa caminhada da nossa comunhão de igrejas. Uma das palavras freqüentemente usadas em anos rece ntes para caracterizar a vida e o trabalho do CMI é "crise". Temos atravessado crises de vários tipos. Temos enfrentado tensões tremendas e conduzido nosso testemunho sob pressões enormes. Porém, grandes projetos podem ser realizados e importantes objetivos alcançados devido a uma crise. A encarnação de Cristo não foi conseqüência de uma crise? A criação do CMI não foi uma resposta a uma crise? Crises sempre acompanharão a vida do CMI de uma forma ou outra. Somos chamados a responder às crises com fé e esperança, e na visão do futuro.
13. Os últimos sete anos da vida do CMI foram um período de distúrbios, sim, mas também de tenacidade. Ressentimos o violento impacto de evoluções mundiais. Mas apesar dos efeitos negativos dessas evoluções, e não obstante o sentimento interno de instabilidade decorrente da importante redução de nossos ingressos e de cortes em programas e pessoal, e também não obstante a emergência de múltiplas preocupações concernentes ao relacionamento com igrejas filiadas, o CMI logrou cumprir em grande parte as recomendações feitas e as prioridades programáticas estabelecidas pela Assembléia de Harare. A reflexão e ação do CMI foram essencialmente organizadas em torno de quatro pontos principais: ser igreja, velar pela vida, ministério de reconciliação, serviço e testemunho comuns em meio à mundialização. Restrições financeiras, reajustes programáticos e mudanças quanto ao pessoal de liderança não comprometeram a qualidade do testemunho do CMI. Tampouco afetaram o moral e a dedicação do pessoal. Guiados pelo Comitê Central e Comitê Executivo, e apoiados pelos vários comitês e comissões programáticos, os membros do pessoal do CMI desempenharam bem sua responsabilidade. Merecem nosso grande reconhecimento.
14. Uma Assembléia é, acima de tudo, uma ocasião para o CMI prestar contas e avaliar suas realizações, falhas e deficiências. É também uma oportunidade de lançar um olhar amplo e realista sobre o movimento ecumênico que o CMI é chamado a servir. Na verdade, uma tentativa séria de analisar a situação ecumênica, caracterizar as realidades e problemas emergentes e identificar novas expressões e desafios ecumênicos, nos permitirá contemplar o futuro com maior confiança e clareza de visão. Na última década, o movimento ecumênico passou por evoluções significativas as quais, com suas extensas ramificações e profundas conseqüências, serão indubitavelmente cruciais para a futura trajetória do ecumenismo. Gostaria de centralizar minhas observações a esse respeito em três áreas específicas: eclesiologia, diálogo inter-religioso e novas auto-articulações do movimento ecumênico.
POR UMA IGREJA ALÉM DE SEUS MUROS
15. O movimento ecumênico diz respeito a "ser igreja". Ele relembrará sem cessar às igrejas a que sejam fiéis à sua identidade e vocação no contexto de tempos e circunstâncias mutantes. Em meu relatório à Assembléia de Harare, eu havia perguntado: "Que espécie de igreja projetamos para o século 21: uma igreja confinada a um estado-nação, a um grupo étnico, e exclusivamente preocupada com sua própria perpetuação? Ou uma igreja missionária aberta ao mundo e disposta a enfrentar os desafios do mundo?" (1). Através de seus programas, relacionamentos e atividades, o CMI sempre se debateu com essa pertinente questão. Também cada uma de nossas igrejas, a sua maneira, luta com esse problema.
16. O cristianismo oficial dá sinais de envelhecimento e vem decrescendo em número, enquando novas faces e formas do cristianismo vêm emergindo. A criação de congregações não-denominacionais, de organizações para-eclesiásticas e de mega-igrejas transformou de maneira dramática o panorama cristão. Importantes mudanças estão ocorrendo também dentro das igrejas: a igreja institucional está perdendo muito de sua influência e impacto na sociedade; em muitas igrejas, tensões e divisões em torno de questões éticas, sociais e pastorais estão gerando desorientação e distanciamento; a linha divisória entre "pertencer" e "crer" vai se acentuando; a mídia vem falando, mais e mais, de igreja "confusa", "polarizada", "calada". Muitas pessoas, mormente entre jovens, estão desapontadas com o que lhes parece ser a incapacidade da igreja institucional de dar resposta aos desafios e problemas dos novos tempos. Essas pessoas esperam da igreja que ela seja apta a satisfazer suas aspirações espirituais, a servir suas necessidades pastorais, e a responder às suas indagações.
17. Tais tendências emergentes pressionam a igreja a ir além de suas fronteiras institucionais, a transcender suas formas tradicionais e a alcançar o povo das bases. Durante séculos, muros dogmáticos, éticos, teológicos, étnicos, culturais e confessionais haviam protegido nossas igrejas. Pergunto-me se esses muros podem continuar a protegê-las num mundo em que interação e interpenetração tornaram-se inerentes à vida humana. A igreja acha-se exposta a toda sorte de vicissitudes e distúrbios da sociedade. Algumas igrejas reagem a essa situação entrincheirando-se em suas barreiras nacionais, confessionais ou institucionais a fim de preservar sua especificidade. Outras, respondendo aos desafios ambientes, buscam novas maneiras de "ser igreja". A igreja não pode mais confinar-se às suas "muralhas", como se fosse uma entidade auto-suficiente; ela precisa interagir com seu meio ambiente. A igreja jamais poderá impactar o mundo permanecendo dentro de seus muros, mas sim saindo para fora deles. No novo contexto mundial, "ser igreja" constitui um grande desafio e tem implicações concretas:
a) Significa conceber a igreja essencialmente como uma realidade missionária, e não como uma instituição congelada. A igreja adquire sua natureza autêntica e seu pleno significado quando se realiza como missão. A igreja é enviada ao mundo para aí discernir e cumprir a vontade de Deus em meio às complexidades e ambigüidades do mundo.
b) Significa que a igreja deve ir além de si mesma, alcançar os pobres e marginalizados compartilhando suas preocupações, identificando-se com seu sofrimento e atendendo às suas necessidades. A igreja perde sua credibilidade quando deixa de interagir com o povo comum na congregação. Ela deve fazer-se "igreja para os outros", igreja que empodera os marginalizados.
c) Significa que a igreja deve tornar-se uma comunidade de todos e para todos; na qual convergem todos os segmentos da sociedade em torno de uma vida e processo decisório comuns, onde a voz das mulheres seja ouvida, a participação dos jovens seja incentivada e as expectativas de pessoas de diferentes capacidades e aptidões sejam satisfeitas - onde toda forma de discriminação seja banida.
d) Significa que a igreja deve lidar com questões relacionadas a bioética, biotecnologia, sexualidade humana e outras esferas da ética e da moral. O debate ecumênico ensinou-nos que a essência e a unidade da igreja têm íntima relação com a ética. Nos relacionamentos intra e intereclesiásticos, as igrejas não podem mais ignorar tais questões. Importa encontrar uma base comum, mediante métodos pastorais e contextuais. Medidas dessa ordem ajudarão as igrejas a evitar tensões e divisões.
e) Significa que a igreja deve levar cura e reconciliação à humanidade e criação quebrantadas. Enquanto comunidade transformada por Deus, primícia e sinal do Reino, a igreja é enviada ao mundo por Cristo a fim de transformá-lo pelo poder do Espírito Santo. A igreja recebeu o mandato de exercer a responsabilidade de mordomo da criação.
f) Significa que a igreja deve redescobrir a importância central da unidade. Uma igreja dividida não pode ser um testemunho credível em um mundo fragmentado; não pode enfrentar as forças desintegradoras e desorientadoras da mundialização e entrar em diálogo significativo com o mundo. Falar a uma voz e assumir em comum sua vocação profética são, portanto, requisitos essenciais para "ser igreja" neste mundo polarizado.
18. Hoje, novos ambientes estão emergindo em torno das igrejas e exigindo que elas revisem e ampliem sua reflexão teológica; novas formas de expansão missionária estão surgindo e desafiando as igrejas a ultrapassarem suas normas tradicionais de evangelização e diaconia; novas maneiras de "ser igreja" estão tomando forma e lembrando às igrejas que elas devem repensar seus conceitos e metodologias educacionais. Obviamente, uma igreja auto-suficiente e introvertida não tem condições de sobreviver numa sociedade radicalmente em mutação. Somente uma igreja libertada de seu autocativeiro, uma igreja em diálogo criativo com seu meio ambiente, uma igreja que tenha a coragem de enfrentar os problemas do seu tempo, uma igreja do povo e para o povo, pode tornar-se fonte viva da graça fortificadora, transformadora e sanadora de Deus. Não estou aqui advogando uma abertura acrítica da igreja frente ao mundo, mas sim que se dê um passo dinâmico e decisivo que a leve da introversão para o diálogo interativo, da busca da autopreservação para a mobilidade missionária, de uma postura de reação para o engajamento na ação, de um comportamento autoprotetor para uma responsabilização atuante. "Ser igreja" é uma questão eclesiológica: implica ir às autênticas raízes da catolicidade, santidade, apostolicidade e unidade da igreja. "Ser igreja" é uma questão missiológica: implica redefinir e rearticular o esse da igreja enquanto realidade missionária. "Ser igreja" é também uma questão ecumênica: implica desafiar a igreja e ajudá-la a tornar-se instrumento eficaz e credível da ação transformadora de Deus num mundo em mutação. "Ser igreja" ocupará sempre um lugar central no movimento ecumênico.
AUTO-COMPREENSÃO EM SOCIEDADES PLURALISTAS
19. A pluralidade religiosa constitui hoje o contexto do "ser igreja". Nossa teologia, tradições, valores e modo de vida são fortemente influenciados pelo meio ambiente plural. A igreja é chamada a redefinir sua identidade e sua vocação missionária em meio a essa pluralidade religiosa. A igreja sempre viveu em diálogo com o seu meio ambiente. Mas a mundialização tornou o diálogo ainda mais existencial e mais inerente à vida cotidiana da igreja. Dialogar é comprometer-se a viver nossas diversidades no quadro de uma única humanidade, de maneira significativa e em coerência com o mundo. É também procurar trabalhar juntos, apesar das nossas divergências e tensões. As seguintes considerações merecem atenção especial:
a) A autocompreensão cristã é crucial no contexto da pluralidade religiosa. A questão da identidade numa situação mundializada e em meio a sociedades pluralizadas não pode ser tratada de uma perspectiva puramente fenomenológica. O novo ambiente no qual vivemos questiona toda autocompreensão monológica ou introspectiva e exige de nós uma autodefinição dialógica. Muito embora nossa identidade seja condicionada pela nossa fé, ela é constantemente testada pelo meio ambiente específico no qual essa identidade é vivida e articulada. Apesar de seus riscos potenciais, essa percepção interativa da identidade cristã enriquece e amplia nossa autocompreensão; além disso, determina nossa maneira de promover educação e formação cristã.
b) Essa maneira de abordar a autocompreensão cristã ajuda-nos também a entender de uma perspectiva correta a "alteridade" do outro: este não é mais visto como estranho e sim como próximo. A mundialização transformou o diálogo de estranhos em diálogo de próximos. Enquanto expressão de sinceridade e respeito, o diálogo com o próximo é uma dimensão vital do ensinamento bíblico. Descobrir o "outro" é redescobrir-se a si mesmo. Mas nossa compreensão do "outro" deve sempre ser verificada pela autocompreensão do "outro". Nossa percepção do "outro" é também crucial para a autocompreensão e auto-realização missiológica da igreja. A ação missionária da igreja não deve ser entendida como uma reação "contra" o estranho, mas sim como um engajamento ativo "com" o próximo. Razão pela qual devemos examinar o significado e as implicações da missio Dei no contexto da pluralidade religiosa.
c) Lidar com a pluralidade religiosa de uma perspectiva cristã implica sempre fazer juízos críticos. Nossa base é a fé no Deus Triuno e o comprometimento com a missio Dei. Devemos revisitar a teologia bíblica e a cristologia do logos da igreja primitiva e, com sua ajuda, rever os elementos fundamentais de nossa fé de uma perspectiva mais ampla. Segundo o ensinamento bíblico, o dom divino da salvação em Cristo é oferecido a toda a humanidade. Igualmente, segundo a pneumatologia cristã, a obra do Espírito Santo é cósmica; de maneira misteriosa, ela alcança as pessoas de todas as crenças. Portanto, a igreja é chamada a discernir os sinais do Cristo "oculto" e a presença do Espírito Santo em outras religiões e no mundo, e a dar testemunho da salvação de Deus em Cristo.
d) No diálogo inter-religioso, não podemos comprometer a verdade da qual somos portadores. Afirmar nossa fidelidade a Cristo, porém, não nos inibe entrar em diálogo e cooperação com outras religiões. A especificidade e integridade de cada religião devem ser respeitadas no diálogo. A fim de tornar nosso diálogo credível e dar-lhe bases sólidas, devemos aprofundar nossos valores comuns e aceitar nossas diferenças. Sentimos ser cada vez mais urgente que as religiões falem juntas, à luz de seus valores comuns, sobre as questões que lhes dizem respeito. Mas, devemos ao mesmo tempo reconhecer as evidências do papel ambíguo da religião na sociedade e da sua utilização abusiva. As igrejas encontram-se face a esse dilema. Mas essa situação ambivalente torna ainda mais imperativo o diálogo inter-religioso. Razão pela qual esse diálogo deve ser levado muito a sério pelas igrejas e pelo movimento ecumênico.
POR UM ECUMENISMO RELEVANTE E CREDÍVEL
20. Entramos em um novo período da história ecumênica. A paisagem ecumênica vem passando por mudanças rápidas e radicais: instituições ecumênicas tradicionais estão perdendo motivação e interesse; novos modelos e critérios ecumênicos estão surgindo; novas alianças e parcerias ecumênicas estão se formando; e novas agendas ecumênicas estão sendo adotadas. O panorama ecumênico de hoje constitui um quadro novo. Quero agora identificar alguns desses importantes desenvolvimentos:
a) Ecumenismo centralizado no povo. Durante a última década, enquanto o ecumenismo institucional parecia gerar indiferença e até mesmo alienação, o ecumenismo como movimento de todo o povo de Deus começou a ganhar importância. Cada vez mais, o ecumenismo vem saindo fora dos confinados limites das instituições ecumênicas e até mesmo das próprias igrejas. Para algumas igrejas, o ecumenismo é uma questão marginal; mas constitui prioridade para certas agências e grupos de ação ecumênicos. O ecumenismo das bases vem se tornando mais atraente em muitas regiões. Cresce a percepção de que, se o movimento ecumênico não se enraizar na vida do povo, e se não for concebido da perspectiva do povo, sua autenticidade e credibilidade serão gravemente danificadas. Na verdade, o ecumenismo não é algo que se importa do exterior, ou que se constrói a partir de um centro institucional. Ao contrário, o ecumenismo deve emanar da própria vida do povo e ser assumido pelo próprio povo. Deve tocar a vida do povo em todas as suas camadas e dimensões. Como resultado desse ecumenismo centralizado no povo, presenciamos a emergência de um paradigma novo e viável, ou seja, a visão de um ecumenismo centralizado na vida. Essa visão, que pode conduzir o movimento ecumênico além de suas expressões institucionais, já está em vias de concretização. Por exemplo, o movimento "Igrejas agindo juntas" é uma expressão tangível dessa visão.
b) Um ecumenismo que responda às realidades mutantes. Alguns pensam que o movimento ecumênico está envelhecendo; outros até acham que já se tornou obsoleto. Os critérios da cultura ecumênica e as formas da estrutura ecumênica não mais se adaptam ao meio ambiente de hoje. Além disso, a agenda ecumênica é, em grande parte, defasada e incompatível com as necessidades e preocupações do presente. Ao lidar com as questões do seu tempo, o movimento ecumênico entende que seu papel é básicamente discernir e articular tais questões. O que se espera do movimento ecumênico, porém, é que ele vá além desse seu papel tradicional e busque soluções, ofereça orientação e, quando necessário, assuma vigorosa postura profética. Constato também um sério problema no que concerne à capacidade das instituições ecumênicas de responder com prontidão e eficácia às expectativas e à crise geral das igrejas. O ecumenismo institucional tem se preocupado com seus próprios problemas e, conseqüentemente, perdido contato com as questões que afligem as igrejas. O fosso crescente entre o ecumenismo institucional e as igrejas merece tratamento sério. Em lugar do ecumenismo de reação que estamos praticando, devemos construir um ecumenismo responsivo que acompanhe e fortaleça as igrejas na sua busca de renovação, um ecumenismo que questione pressuposições arcaicas e incentive reflexão criativa, um ecumenismo que se empenhe em substituir estilos tradicionais por metodologias inovadoras, comportamentos conservadores por atitudes realistas.
c) Assegurar a complementaridade e plenitude do movimento ecumênico. Mais e mais igrejas estão entrando em diálogo teológico bilateral (forma de relacionamento ecumênico preferida principalmente pela Igreja Católica Romana desde o Concílio Vaticano
II) e em colaboração ecumênica bilateral. Como resultado, o ecumenismo multilateral vem declinando e o ecumenismo conciliar estagnando. O movimento ecumênico está evoluindo em quatro direções: diálogo teológico bilateral, parceria ecumênica bilateral, ecumenismo institucional e ecumenismo do povo. As instituições ecumênicas e as igrejas não têm sido capazes, até o presente, de assegurar a complementaridade dessas várias evoluções. Na verdade, constatamos sinais de polarização em várias áreas e diferentes níveis da vida ecumênica, e a gradual desintegração de muitas instituições ecumênicas. É de vital importância promover coerência entre estruturas ecumênicas e iniciativas ou ações ecumênicas em nível mundial, regional e nacional. Mais importante ainda é preservar a unidade, plenitude e integridade do movimento ecumênico. Como bem afirma a declaração ecumênica sobre "Compreensão e visão comum do Conselho Mundial de Igrejas" (CUV), o CMI, como a mais organizada e institucional manifestação do movimento ecumênico, tem a obrigação de se engajar nessa tarefa primordial(2). Durante a última década, o CMI realizou esforços consideráveis para fortalecer a coesão do movimento ecumênico. Não obtante, no meu entender, não tivemos muito sucesso em expressar de maneira tangível a unidade e plenitude do movimento ecumênico, mesmo com relação à Igreja Católica Romana. Parece-me que, enquanto as igrejas - principais responsáveis e atores do movimento ecumênico - não assumirem essa tarefa crucial, as organizações ecumênicas serão dominadas por parceiros ecumênicos e o trabalho ecumênico das igrejas se limitará a diálogos teológicos bilaterais.
d) Ecumenismo unificador ou divisor? Quando surgiu o movimento ecumênico, seu objetivo declarado era derrubar as "paredes de separação" (Ef 2.14) e promover a unidade visível das igrejas. Todavia, em virtude de desenvolvimentos intra e intereclesiásticos e de circunstâncias cambiantes no mundo, o movimento ecumênico tornou-se palco de novas tensões e alienações. Controvérsias e divisões concernentes a questões éticas, políticas e sociais encontram ressonância no movimento ecumênico. Muitas igrejas têm uma percepção errônea do ecumenismo: assemelham-no às forças do liberalismo e do secularismo ou temem que ele constitua uma ameaça ao ensinamento moral das igrejas e que acabe levando ao proselitismo ou sincretismo. O CMI, como muitos conselhos eclesiásticos regionais e nacionais e até mesmo comunhões confessionais mundiais, sofre as conseqüências dessas falsas percepções. Tal situação requer consideração séria, análise abrangente e tratamento cuidadoso. A melhor maneira de lidar com essa situação complexa é que as igrejas e as instituições ecumênicas assumam uma atitude de escuta e de confiança recíproca, procurando entender e respeitar as sensibilidades umas das outras. O movimento ecumênico deve continuar a propiciar espaço para o diálogo honesto e a interação criativa das igrejas a fim de que as contradições se aclarem. E deve também ajudar as igrejas na busca de maior coerência e consenso, sem prejuízo de suas diversidades.
e) Emergência de novos modelos de ecumenismo. Durante muito tempo, protagonistas e dirigentes ecumênicos se restringiam às igrejas e suas hierarquias; atualmente, incluem também pessoas oriundas de agências doadoras e ministérios especializados. Novas maneiras de "ser" ecumênico e de "fazer" ecumenismo estão surgindo: a formação de redes está tomando o lugar de instituições; defensoria' está superando programação; ecumenismo em termos de filiação a uma orgnização está sendo ultrapassado por ecumenismo de parceria e de aliança. Mais e mais, igrejas e círculos ecumênicos consideram o movimento ecumênico como um "fórum" ou um "espaço" de diálogo e colaboração. Alguns desses novos modelos de ecumenismo não só contribuem para um ecumenismo despojado de comprometimento, mas também desinteressam-se em avançar rumo à unidade visível. Penso que não devemos perder mais tempo e energia tentando perpetuar os vestígios de um ecumenismo envelhecido. O movimento ecumênico deve procurar servir a sua causa sagrada em vez de deixar-se paralisar em estruturas esclerosadas. Acredito também que qualquer forma de ecumenismo que não gere inquietudes e que não requeira comprometimento não é ecumenismo. Ecumenismo "facilitado" ou "descomprometido" é um obstáculo à nossa caminhada ecumênica. O que precisamos é de modelos ecumênicos que desafiem sem cessar as igrejas, não simplesmente a coabitar, mas a crescer juntas e a passar de uma existência auto-suficiente para uma existência interdependente, de um testemunho unilateral para um testemunho multilateral. Esse sim é o verdadeiro modelo ecumênico.
f) O que está em crise é a instituição ou a visão? O movimento ecumênico sempre enfrentou crises. Muitos crêem que a crise é inerente à instituição. Concordo. Mas a meu ver, também a visão ecumênica está em crise. Alguns dirão que o problema não tem a ver com a visão e sim com a maneira pela qual os imperativos e desafios que decorrem dessa visão são percebidos e aplicados à realidade. Outros, porém, estão persuadidos de que já ultrapassamos a etapa do CUV e que devemos agora buscar uma visão nova para o século 21. O verdadeiro problema, na minha opinião, é duplo: as instituições ecumênicas estão em vias de perder contato com a visão, e a visão, por sua vez, parece vaga e ambígua. Não devemos ser prisioneiros de nossas instituições ecumênicas, nem cativos de nossa visão. O movimento ecumênico não é só atividades programáticas, e nem se resume a mera defensoria' ou formação de redes. A instituição não pode tomar o lugar da espiritualidade, e nem a ação o lugar da visão. Como dom do Espírito Santo, e como movimento voltado ao futuro, o movimento ecumênico transcende suas fronteiras institucionais e expressões geográficas. O que o movimento ecumênico necessita é de uma nova articulação entre espiritualidade e visão. A dimensão horizontal do movimento ecumênico deve ser consolidada pela sua dimensão vertical, ou seja, por uma espiritualidade que faça do movimento ecumênico uma fonte de renovação e transformação. Ademais, a visão ecumênica deve ser constantemente reavaliada e redefinida, e isso por fidelidade à mensagem do Evangelho e em resposta às situações cambiantes.
21. Esses desenvolvimentos continuarão impactando o CMI e, por isso, devemos não só ter consciência da força do CMI como também ter a coragem de admitir sua fragilidade e vulnerabilidade. Devemos reconhecer suas realizações e também, com humildade, suas deficiências e fracassos. Uma atitude triunfalista só poderá agravar a estagnação, e uma postura protecionista só isolará ainda mais o CMI do movimento ecumênico. O CMI não é uma organização a ser avaliada apenas em termos de "verificações contábeis". O CMI é uma comunhão de oração e de esperança. Sua vocação é ser sinal, agente e instrumento de um ecumenismo credível, confiável e responsável. Para realizar esse propósito, o CMI deve passar por uma profunda mudança e renovação na sua maneira de pensar e agir, e de organizar e comunicar suas atividades.
ALÉM DA ASSEMBLÉIA - OLHANDO O FUTURO
22. A Assembléia é também uma oportunidade única de olhar para frente, de tentar identificar as áreas prioritárias emergentes, e as procupações maiores que irão determinar a futura agenda e percurso do CMI. O período logo após a Assembléia será caracterizado por um intensivo planejamento estratégico que terá por objetivo reformular o arcabouço programático do CMI. Penso que durante esse processo, que deve começar já nesta Assembléia, os seguintes pontos devem merecer séria consideração:
FORJAR COMUNHÃO - UMA PRIORIDADE ECUMÊNICA
23. A despeito dos persistentes esforços para se constituir em comunhão de igrejas, o CMI continua sendo uma organização localizada em Genebra. Mais que nunca, o caráter de comunhão do CMI enfrenta enormes desafios: primeiro, devido ao crescente fosso entre as igrejas-membro e o CMI; segundo, em razão da participação cada vez maior dos parceiros ecumênicos na vida e no testemunho do CMI; terceiro, em virtude do fato que a ênfase do CMI vai passando da construção de comunhão para ações voltadas à defensoria'.
a) Para muitos, unidade não é mais prioridade ecumênica, e sim um mero tema acadêmico ou, quando muito, um objetivo escatológico. De fato, em sua nova metodologia e estratégia ecumênica, o CMI associa unidade com questões éticas, sociais e missiológicas. Resulta que unidade perdeu muito de sua centralidade e urgência. O CMI deve voltar a enfatizar a importância vital da unidade visível mediante a reativação dos processos de convergência e recepção, particularmente através dos estudos "Batismo, eucaristia e ministério"(3), "Confessando a fé una"(4) e "Natureza e missão da igreja"(5). Por outro lado, o CMI deve também aprofundar a convicção de que a busca da unidade e o engajamento comum no testemunho e serviço ao mundo não são incompatíveis entre si, mas, ao contrário, mutuamente enriquecedores.
b) Que espécie de CMI somos? Uma organização que planeja atividades, estabelece programas e promove defensorias'? Ou uma comunhão voltada à unidade visível da igreja? Eu diria, ambas. Não vejo nisso nenhum dilema ou ambigüidade. Esses dois aspectos do trabalho do CMI condicionam-se e fortalecem-se mutuamente. Posto que somos uma organização, impôe-se que trabalhemos em amplo relacionamento, inclusive com parceiros ecumênicos. É vital para o futuro do movimento ecumênico que desenvolvamos senso de mutualidade e complementaridade com os parceiros ecumênicos. Suas competências e recursos financeiros são necessários para o CMI. Tenhamos em mente, porém, que a criação de novas alianças e defensorias'.assim como a crescente colaboração com os parceiros ecumênicos, podem, cedo ou tarde, enfraquecer o caráter de comunhão do CMI. O CMI não pode ser transformado em uma organização ecumênica mundial que apenas facilite, coordene e organize atividades. Seria contradizer sua própria natureza e vocação. Enquanto comunhão de igrejas, é a estas que o CMI deve prestar contas, muito embora careça de espaços mais amplos para suas reflexões e ações. Como sublinha o documento CUV, "aprofundar" e "alargar" a comunhão do CMI são indissociáveis(6). Portanto, a especificidade do CMI, enquanto comunhão de igrejas, e seu papel de entidade singular atuando dentro do movimento ecumênico mundial, devem ser reequilibrados, reafirmados e reestruturados.
c) Algumas igrejas entendem que há outras maneiras de viver o engajamento ecumênico. Daí preferirem apenas trabalhar com outras igrejas, em vez de dialogar e crescer com elas na família dos membros do CMI. A questão é como lançar um processo que aprofunde nas igrejas-membro o sentimento de que o CMI lhes pertence. O CMI, na verdade, são as igrejas unidas no comprometimento com o Evangelho e unidas umas às outras. O CMI deve ouvir mais atentamente as igrejas, no propósito principal de fortalecer a comunhão entre elas. As igrejas, por sua vez, devem levar mais a sério sua filiação ao CMI e reconhecer que ser membro e parte da comunhão do CMI têm implicações espirituais, ecumênicas e financeiras. Certa vez, perguntei a um líder de igreja o que sua igreja fazia pelo CMI. "Levantamos dinheiro" respondeu. Acrescentei, "você deve também levantar a conscientização". De fato, promover comunhão pressupõe conscientizar, criar confiança e fazer sacrifícios. Na Assembléia de Harare, as igrejas afirmaram: "Comprometemo-nos a estar juntos no crescimento contínuo rumo à unidade visível"(7). Nossa vocação é dar uma nova qualidade à nossa comunhão. Isso, tornando o CMI mais responsável perante as igrejas-membro e incentivando o sentimento de identificação dessas igrejas com o CMI; buscando novas formas de reflexão, trabalho e ação em comum; explorando novas maneiras de "ser igreja" em comunhão. Se não garantirmos um mínimo de base eclesiológica ao CMI, nossa comunhão restará frágil e ambígua. Pergunto se não seria agora o tempo oportuno de revisitarmos a declaração de Toronto(8).
DE MUDANÇA DE REGRAS PARA MUDANÇA DE ETHOS
24. Desde o fim da guerra fria, o CMI e as Igrejas Ortodoxas vêm seguindo caminhos separados, com preocupações e prioridades diferentes. O CMI não tem compreendido totalmente, nem corretamente, as expectativas ortodoxas de recuperar e de redescobrir sua identidade e posição na sociedade pós-comunista. Ao mesmo tempo, a crítica que as Igrejas Ortodoxas fazem do CMI tem sido exagerada a ponto de ignorar suas valiosas realizações ecumênicas para as quais as próprias Igrejas Ortodoxas contribuíram de maneira significativa. Algumas das tensões e distanciamentos entre o CMI e as Igrejas Ortodoxas são resultado de condições internas ortodoxas, de realidades cambiantes nas novas sociedades com população predominantemente ortodoxa, e da estrutura e agenda próprias do CMI. Após sete anos de intenso trabalho, a Comissão Especial criada em Harare identificou certo número de áreas específicas merecedoras de séria revisão. As recomendações dessa Comissão foram adotadas pelo Comitê Central. Como resultado, certas matérias relativas à Constituição e aos Regulamentos estão incluídas na agenda desta Assembléia:
a) O modelo consensual dos procedimentos de votação é a mais importante proposta da Comissão. Através desse modelo, o CMI vai experimentar uma mudança fundamental, ou seja, passar de um sistema parlamentar de votação para uma busca de consenso. O modelo consensual visa não somente mudar os procedimentos de votação; espera-se que ele contribua também para maior participação, comunhão e sentimento de identidade. Consenso não significa necessariamente unanimidade. Antes, significa preservar a diversidade no respeito das diferenças e, ao mesmo tempo, superar as contradições e alienações. Portanto, não se trata apenas de uma questão de procedimento. O objetivo é desafiar-nos a compartilhar nossas luzes teológicas e nossas experiências espirituais; e também manifestar nossas perspectivas e preocupações com mais precisão, capacitando-nos uns aos outros e buscando juntos a mente da igreja. De início, o modelo consensual era uma medida para fortalecer a participação das Igrejas Ortodoxas. Ele deve agora ultrapassar as Igrejas Ortodoxas e mostrar a todas as igrejas-membro que elas, em conjunto, constituem uma comunhão, e que são chamadas a lidar com questões importantes num espírito, não de confrontação, mas de abertura e confiança recíproca.
b) Será que o modelo consensual, e as demais recomendações da Comissão Especial, transformarão a mentalidade (ethos) do CMI? Na realidade, as várias "consultas ortodoxas" já organizadas, "declarações ortodoxas" feitas, "contribuições ortodoxas" submetidas ao CMI desde sua criação tiveram, indubitavelmente, algum impacto. Mas não chegaram a produzir mudança real quanto ao estilo, estrutura e metodologia predominantemente ocidental-protestantes do CMI. Essa falha se explica tanto pela carência de persistência e de acompanhamento por parte das Igrejas Ortodoxas quanto pela resistência ou indiferença das Igrejas Protestantes em relação às preocupações e contribuições teológicas ortodoxas. Aí está o real problema, e também o real desafio. A Comissão Especial propôs novas maneiras de trabalhar em conjunto em torno de assuntos controvertidos e questões divisoras. Espera-se, com isso, que as Igrejas Ortodoxas sejam mais bem ouvidas e compreendidas. Pessoalmente, espero que as Igrejas Ortodoxas, por sua vez, usem essa oportunidade para assegurar uma participação mais organizada e mais eficiente em todas as áreas e em todos os níveis da vida e do trabalho do CMI. A mentalidade (ethos) do CMI não será imediatamente transformada em função das considerações feitas pela Comissão Especial. Devemos ser realistas e pacientes. A questão crucial permanece: como pode o CMI passar de uma mudança de regras para uma mudança de mentalidade (ethos)? Todas as igrejas-membro têm um papel importante a desempenhar nesse processo longo e difícil.
c) Acaso as considerações da Comissão Especial correspondem às "preocupações ortodoxas"? Algumas Igrejas Ortodoxas não ficaram totalmente satisfeitas com o trabalho da Comissão. Assim como alguns membros protestantes do CMI têm reservas quanto a alguns aspectos do trabalho da Comissão. Além disso, sempre continuarão existindo afinidades, divergências e ambigüidades. O que a Comissão Especial conseguiu realizar até agora é apenas o início de um processo. Há mais trabalho pela frente, notadamente nas áreas de recepção de membros, oração em comum, eclesiologia, e temática social e ética. Já passou o tempo das "contribuições" ortodoxas; entramos na era da integração ortodoxa no CMI. Esse processo começa primeiro nas Igrejas Ortodoxas, no nível das bases, onde se deve criar conscientização sobre a importância do ecumenismo para a vida da igreja. E deve refletir-se concretamente no envolvimento ativo dos representantes ortodoxos nos comitês programáticos que constituem, por assim dizer, o coração das atividades do CMI. O modelo consensual e as recomendações da Comissão Especial facilitarão esse processo. Espero que a crise CMI/Igrejas Ortodoxas tenha por efeito sacudir e desafiar todas as igrejas-membro para melhor cumprirem seu comprometimento ecumênico.
RECONFIGURAÇÃO - UM PROCESSO DE RENOVAÇÃO
25. As instituições ecumênicas foram projetadas em resposta à velha ordem mundial. Elas são defasadas em relação ao contexto do mundo de hoje. O panorama ecumênico atual, com seus novos desenvolvimentos e realidades, poderá tornar-se confuso e desorientador se não forem tomadas medidas para compreendê-lo e reordená-lo criticamente. Durante a última década, através do CUV e da Comissão Especial, o CMI procurou lidar com questões urgentes e vitais que afetavam o movimento ecumênico em geral e o próprio CMI em particular. O processo de "reconfiguração" iniciado recentemente pelo CMI deverá ocupar lugar importante na agenda ecumênica. A meu ver, as seguintes questões e fatores demandam atenção:
a) A noção de reconfiguração adquire diferentes conotações em diferentes regiões; e varias igrejas e parceiros ecumênicos têm dela variadas percepções e expectativas. A idéia geral é que o movimento ecumênico, em todos os seus aspectos e expressões, necessita de uma reavaliação abrangente e realista, seguida de uma reformulação e reorientação. Daí que, a reconfiguração não deve ser vista como algo restrito apenas ao CMI, com escopo e implicações limitados ao CMI. Trata-se, antes, de uma concepção e aspiração comum de escala mundial que deverá envolver todas as igrejas, inclusive a Igreja Católica Romana, instituições, parceiros e diferentes atores ecumênicos.
b) A reconfiguração não deve limitar-se a simplesmente mapear de novo e reordenar a oikoumene. Ela deve basicamente renovar a vida e o testemunho ecumenicos. Como? Adaptando sua cultura às novas condições, reestruturando as instituições ecumênicas, revisando os programas e relacionamentos, alçando a qualidade do crescimento em comum, estabelecendo coerência e redes de contato entre as diferentes formas e expressões de ecumenismo, e alargando os horizontes da parceria ecumênica. O CMI não tem podido incorporar plenamente o documento CUV em suas atividades programáticas. Como expressão de uma visão, o documento CUV continua sendo relevante para o movimento ecumênico geral, muito embora deva ser hoje reinterpretada. No processo de reconfiguração, tanto o documento CUV quanto o trabalho da Comissão Especial devem merecer a devida atenção.
c) O movimento ecumênico deve desenvolver uma metodologia integrada que abranja instituições, agendas e metas, bem como maneiras de refletir e agir ecumenicamente. Deve também desenvolver uma perspectiva integrada capaz de responder às questões críticas e aos grandes desafios mundiais. Essa estratégia integrada - que contrasta com iniciativas unilaterais e individuais, por priorizar interação e coordenação - constitui, na verdade, uma realidade ontológica que diz respeito ao esse da fé cristã. Ela contribui também para a eficácia do testemunho cristão.
d) O movimento ecumênico encontra-se hoje em dilema. Ele ocila entre integração e desintegração, parceria e fragmentação, defensoria' e comunhão, bilateralismo e multilateralismo. Em virtude de sua própria natureza, que é ser uma comunhão crescente de igrejas, o CMI exerce uma função facilitadora, comunicadora e coordenadora no movimento ecumênico mundial. Esse privilégio específico do CMI deve revestir-se de maior visibilidade e eficiência na atual conjuntura crítica do movimento ecumênico.
e) O movimento ecumênico enfrenta uma crise de credibilidade e de relevância. Não basta responder a essa crise apenas reconfigurando instituições. Se o movimento ecumênico quiser atuar de maneira responsável e eficaz neste raiar do século 21, ele precisa fundamentalmente, e com urgência, de aggiornamento, ou seja, de renovação e transformação.
f) A Igreja Católica Romana tem pedido "clareza" quanto à fundamentação e visão teológicas do ecumenismo. Compartilho essa preocupação. Uma das contribuições mais valiosas do processo de reconfiguração poderá ser o desenvolvimento daquilo que eu denomino visão ecumênica compartida. Por visão compartida quero significar um reexame e redefinição das metas ecumênicas com vistas a que todas as igrejas, inclusive a Igreja Católica Romana, e parceiros ecumênicos possam se associar a elas. Essa visão compartida será um sustentáculo à nossa ação ecumênica mundial, independentemente de reestruturações institucionais ou eclesiais. Tal passo poderá dar novo impulso aos objetivos ecumênicos. Sem ele, um mero ativismo intensificado levará ao enfraquecimento da base espiritual e teológica do movimento ecumênico. Essa questão deve, pois, ser levada em consideração no processo de reconfiguração.
VIOLÊNCIA - UMA GRANDE PREOCUPAÇÃO ECUMÊNICA
26. Em resposta à crescente cultura de morte, a Assembléia de Harare lançou a Década para superar a violência - igrejas em busca de reconciliação e paz (2000-2010) (DSV). Ao entrar nesse processo de enorme importância histórica, o CMI afirmou: "Trabalharemos juntos para superar a mentalidade, a lógica e a prática de violência", porque nossa vocação profética nos leva a ser "agentes de reconciliação e paz com justiça"(9). Várias iniciativas regionais, campanhas anuais focalizadas (em 2006, o foco é a América Latina), projetos de paz urbana e recursos pedagógicos têm contribuído para criar conscientização e promover valores de vida, tolerância e compaixão. Responder à violência e superá-la permanecerá uma importante prioridade ecumênica. Ao avaliar as experiências e os discernimentos adquiridos durante a primeira metade da Década, a Assembléia irá traçar, com certeza, novas diretrizes para os anos vindouros. Nessa linha, gostaria de oferecer algumas perspectivas:
a) Temos dito repetidas vezes que, por ser uma iniciativa que envolve todo o CMI, a DSV é basicamente um processo ecumênico. Portanto, é essencial que o movimento ecumênico, em todas as suas expressões institucionais, faça da "superação da violência" uma prioridade urgente. A contribuição cristã para a campanha mundial contra a violência deve ser reconhecida à luz de suas novas modalidades de ação, e sua especificidade deve ser mais bem salientada.
b) A violência é um fenômeno complexo e de muitas faces. A DSV deve levar em conta não só os sintomas ou as manifestações flagrantes da violência, mas também suas causas profundas e as ideologias que as fomentam.
c) Superar a violência implica compreender o "outro" e promover valores de compaixão, tolerância e coexistência. As religiões podem desempenhar papel central nesse contexto. O diálogo e a colaboração inter-religiosos podem prestar-se à construção de comunidades humanas.
d) Superar violência significa sanar memórias, aceitar a verdade e avançar no caminho do perdão e da reconciliação. A DSV conclama as igrejas a trabalhar em prol da reconciliação. Por ser um meio eficaz de resolver conflitos (o que constitui em si uma dimensão vital da vocação cristã), o CMI tratará de promover reconciliação com a máxima seriedade.
e) Freqüentemente, a causa fundamental da violência é a negação da justiça. Agir em favor da justiça é um meio importante de superar violência. Por outro lado, a violência é às vezes usada como meio para alcançar justiça. O inter-relacionamento de justiça e violência é uma questão crucial que exige análise abrangente e aprofundada. A propósito, seria oportuno revisitar o estudo sobre a proteção das populações em risco nas situações de violência armada(10), preparado pela Comissão das Igrejas para Assuntos Internacionais (CCIA) e enviado às igrejas para reflexão e ação.
f) A igreja deve agir ativamente, e não só reagir, contra a violência. A não-violência deve ser adotada como estratégia e metodologia de ação para superar a violência. A igreja deve pregar a tolerância, abertura e aceitação recíprocas. É nossa vocação cristã sermos agentes da reconciliação, cura e transformação operadas por Deus. Se outros optam pela estratégia da "guerra ao terror", a nossa estratégia é "superar a violência"; se o objetivo de outros é "segurança", até por meio de intervenção militar, o nosso objetivo é paz com justiça, compreensão e confiança recíprocas.
JOVENS - GERADORES DE UMA NOVA DIRETRIZ ECUMÊNICA
27. "Deus, em tua graça, permite que os jovens transformem o mundo" . É o que os/as jovens oraram, com profundo senso de humildade, responsabilidade e coragem, durante a última reunião do Comitê Central. Oraram também por uma igreja mais aberta, por uma teologia mais relevante, por um ecumenismo mais credível, por uma sociedade mais participativa. Eu me associo sem reserva a essa visão clara e a essa determinação firme da juventude. Como líder de igreja e Moderador, sempre desfrutei e sempre me enriqueci ouvindo os/as jovens na minha igreja e nos círculos ecumênicos. Ouvir os/as jovens! Que desafio extraordinário a cada um de nós que ocupamos posições de autoridade em nossas igrejas respectivas e nas instituições ecumênicas. Não há dúvida que a juventude tem papel importante a desempenhar nas igrejas, no movimento ecumênico e na sociedade. Mas, não basta apenas declarar isso. Devemos envolver essa juventude plenamente na vida total das igrejas e do movimento ecumênico geral. Ofereço, a esse respeito, as seguintes observações:
a) A juventude tem papel especial a desempenhar no "ser igreja". Considero esse papel como sendo basicamente o de agente de transformação. Devemos apoiar a juventude a passar da periferia ao centro da vida e testemunho de nossas igrejas, inclusive nos seus processos decisórios. Não posso imaginar a igreja sem os/as jovens. Eles/as asseguram a vitalidade e a renovação da igreja, e por isso devem tornar-se atores, e não apenas ouvintes, líderes, e não meros seguidores.
b) A juventude tem também um papel primordial a desemprenhar no "ser ecumênico". Cabe-lhe envolver-se ativamente na reformulação e transformação do movimento ecumênico. Ao organizar reuniões ou nomear comitês, não deveríamos ver na juventude apenas uma categoria a parte ou um apêndice. Não se trata de estabelecer cotas para jovens ou conceber programas voltados específicamente para jovens. Prefiro ver jovens ativamente presentes em todas as categorias, em todas as áreas, em todos os níveis da vida e testemunho gerais das igrejas e do movimento ecumênico.
c) A formação ecumênica da juventude é de importância decisiva para o futuro do movimento ecumênico. Sabemos que vêm declinando a qualidade e quantidade de pessoas interessadas na vida ecumênica, tanto no CMI quanto em outros círculos. A sobrevivência do movimento ecumênico é condicionada em grande parte pelo envolvimento ativo e responsável da juventude. Toda visão requer visionários que sonhem e que lutem para concretizar seus sonhos. Preparar uma nova geração ecumênica é tarefa imperativa e, por isso, deve ser foco de atenção do movimento ecumênico. O futuro pertence àquelas/es que têm a visão e a audácia de plasmá-lo.
d) Se nós não capacitarmos a juventude, ela buscará outros espaços, fora das igrejas e do movimento ecumênico, onde criar suas próprias redes de contato e expressar suas preocupações, sonhos e visões. A 8a Assembléia havia sido a Assembléia do Jubileu. Esta Assembléia deve tornar-se a Assembléia da Juventude, não só devido à forte presença de jovens, mas também pelo impacto de sua participação e pelo desafio de suas visões. A juventude poderá tornar-se pioneira de uma nova ordem ecumênica e vanguarda de um novo futuro ecumênico.
UMA CAMINHADA DE FÉ E ESPERANÇA
28. Foi com tais sentimentos e entusiasmos que eu mesmo, na qualidade de representante jovem, iniciei minha caminhada ecumênica. Fiquei feliz quando, há poucos anos, uma conferência de jovens de diferentes partes do mundo, realizada em minha igreja de Antelias, no Líbano, afirmou em sua declaração que ser ecumênico "pertence à própria essência de ser igreja"(11). Essa é uma convicção que eu mesmo adquiri através da minha experiência no movimento ecumênico.
Ser ecumênico significa engajar-se numa missão e diaconia em comum, e lutar pela unidade visível da igreja.
Ser ecumênico significa orar, trabalhar, sofrer, compartilhar e testemunhar em comunhão com outros/as.
Ser ecumênico significa discernir nossa identidade essencial não naquilo que nos distingue, mas na nossa fidelidade comum aos imperativos do Evangelho.
Ser ecumênico significa afirmar nossas diversidades e, ao mesmo tempo, transcendê-las a fim de descobrir nossa identidade comum e unidade em Cristo.
Ser ecumênico significa ser uma igreja que se realiza constantemente como evento missionário que responde ao chamado de Deus em meio a um mundo cambiante.
Ser ecumênico significa engajar-se responsavelmente numa caminhada de fé e de esperança.
29. Em Amsterdã, na 1a Assembléia do CMI (1948), dissemos: "temos a intenção de permanecer juntos". Aqui em Porto Alegre deveremos poder dizer "permaneceremos juntos" na caminhada de fé e de esperança rumo ao futuro de Deus.
30. Ao assumir a responsabilidade de Moderador, em 1991, afirmei: "O mar está agitado; e nós somos chamados por Deus a navegar o barco ecumênico, pelo poder do Espírito Santo, através desse mar agitado". O movimento ecumênico é um barco que vai avançando mar agitado adentro. O forte simbolismo dessa imagem sempre nos empolgará. Ao navegar através das tempestades, o barco ecumênico pode estar fazendo água. Alguns dirão que está naufragando. Creio intimamente que nossa coragem espiritual de buscar novos horizontes, nossa profunda fé e esperança por um novo futuro, nosso inabalável comprometimento na causa ecumênica guardarão o barco ecumênico firme e bem norteado em meio às terríveis turbulências do mundo.
31. A caminhada ecumênica é uma peregrinação de fé e esperança. Participo dessa peregrinação desde 1970 - um curto período de uma longa caminhada! Durante essa caminhada de fé e esperança tenho tido sonhos:
Sonhei que o reconhecimento mútuo do batismo, selo de nossa identidade cristã e alicerce de nossa unidade, seria logo alcançado. Sonhei que todas as igrejas do mundo celebrariam a ressurreição do nosso Senhor juntas e no mesmo dia, como uma das expressões visíveis de nossa unidade. Sonhei que uma Assembléia Ecumênica - que ainda não era bem um Concílio Ecumênico - seria convocada, com a participação de todas as igrejas, a fim de celebrar nossa comunhão em Cristo e lidar com os desafios enfrentados pela igreja e pelo mundo. Sonhar é uma dimensão essencial do "ser ecumênico". Tenho a convicção de que novas gerações, fortes na fé e na esperança e com renovada visão e engajamento, continuarão a sonhar.
Sou agradecido a todos quantos, nesta caminhada ecumênica, fortaleceram minha fé, nutriram minha reflexão, apoiaram minha ação e enriqueceram minha diakonia. Tive o privilégio de cooperar estreitamente com três Secretários-gerais - Rev. Dr. Emilio Castro, Rev. Dr. Konrad Raiser e Rev. Dr. Sam Kobia - e quatro Vice-moderadores - Bispa Dra. Nelida Ritchie, Bispo Dr. Soritua Nababan, Dr. Marion Best e Juíza Sofia Adinyira -, assim como com muitas irmãs e irmãos em Cristo de diferentes partes da oikoumene. Cabe a Deus julgar se eu pude dar algo ao CMI. Sei que o que recebi do CMI transformou minha vida e ministério. Rendo graças pelo privilégio de servir a Deus através do CMI.
Recentemente, um companheiro ecumênico me perguntou: "Esta Assembléia será o epílogo da sua caminhada ecumênica?" Respondi: "Ao contrário. Será o prólogo de minha nova caminhada ecumênica". O ecumenismo tornou-se inerente à minha vida. Enriquecido pela experiência de tantos anos, pretendo ser ainda mais engajado ecumenicamente. Com a ajuda de Deus, quero continuar essa caminhada de fé e esperança como um peregrino devoto, e orar com vocês e com tantas pessoas mundo afora:
Deus, em tua graça, transforma nossas igrejas.
Deus, em tua graça, transforma o movimento ecumênico.
Deus, em tua graça, transforma o mundo.
ARAM I
CATOLICOSSE DA CILÍCIA
Fevereiro de 2006
Antelias, Líbano
NOTAS
Aram I, In a Search of Ecumenical Vision, Antelias, 2000, p. 283.
Towards a Common Understanding and Vision of the World Council of Churches: A Policy Statement, Genebra, Conselho Mundial de Igrejas, 1997, pp. 18-20.
Baptism, Eucharist and Ministry, Faith and Order Paper no. 111, Genebra, 1982.
Confessing the One Faith: An Ecumenical Explication of the Apostolic Faith, Faith and Order Paper no. 153, Genebra, 1991.
The Nature and Mission of the Church: A Stage on the Way to a Common Statement, Faith and Order Paper no. 198, Genebra, 2005.
Towards a Common Understanding and Vision of the World Council of Churches: A Policy Statement, Genebra, Conselho Mundial de Igrejas, 1997, pp. 14-15.
Diane Kessler, ed., Together on the Way - Official Report of the Eight Assembly of the World Council of Churches, Genebra, 1999, p. 3.
Em 1950, o Comitê Central do CMI, reunido em Toronto, produziu um texto sobre "A Igreja, as Igrejas e o Conselho Mundial de Igrejas - o significado eclesiológico do Conselho Mundial de Igrejas". A Documentary History of the Faith and Order Movement (1927-1963), ed. Lukas Fischer, St. Louis, MO, Bethany Press, 1963, pp. 167-176. Esse texto, conhecido na literatura ecumênica como "Declaração de Toronto", é fundamental para uma compreensão comum do CMI. Tem duas partes; a primeira contém cinco declarações sobre o que o CMI não é; a segunda oferece oito afirmações positivas que fundamentam a vida do CMI.
World Council of Churches, Central Committee, Minutes of the Fifty-First Meeting, Potsdam, Germany, 28 January-16 February 2001, Genebra, 2001, p. 177.
"The Protection of Endangered Populations in Situations of Armed Violence: Towards an Ecumenical Ethical Approach", Central Committee, Minutes of the Fifty-First Meeting, Potsdam, pp. 219-242.
"Vision from Youth Consultation on Reconfiguration of the Ecumenical Movement", Consulta sobre Reconfiguração do Movimento Ecumênico, convocada pelo Conselho Mundial de Igrejas, 17-21 de novembro de 2003, Antelias, Líbano. Genebra, WCC, 2004, p. 27.

