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Document date: 20.02.2006

"Chamados a sermos uma Igreja" O Futuro do Ecumenismo
Uma Visão Protestante

Isabel Apawo Phiri

Introdução:

A história, a missão e a teologia da igreja em África foi bem documentada. Cristãos africanos podem ser enquadrados em termos gerais como sendo de orientação católica romana, protestante, ortodoxa e independente. Todas estas tradições contribuiram para metas ecumênicas variadas e diversas em obediência a Jesus Cristo. O objetivo deste texto é o de introduzir e explorar o texto "Chamados a sermos uma Igreja" como um impulso para a busca das igrejas por uma unidade visível de fé, vida, testemunho e ação a partir de uma perspectiva protestante. Eu uso "uma" perspectiva como oposto a "a perspectiva protestante", colocando-me, assim, firmemente dentro da tradição pós-moderna que reconhece a possibilidade de uma multiplicidade de vozes em cada uma das disciplinas ou tradições. Deste modo tento apresentar só "uma" perspectiva. Essa perspectiva é talhada pelo meu próprio contexto de uma presbiteriana de Malawi que vive na Africa do Sul. Adicionalmente ao meu contexto eclesiástico e doméstico, o meu trabalho na educação teológica em ambientes ecumênicos e de credos multiplos e a minha dedicação a assuntos de justiça social através do trabalho do Círculo de Teólogas Africanas Preocupadas também influenciará a perspectiva que ofereço. 

Koinonia/Comunhão através formação e educação teológica

Os problemas desafiadores do ecumenismo na educação e formação teológica na África têm sido bem documentados, e a pesquisa continua. Apesar disso há varias instituições na África que tentaram atacar os desafios do ecumenismo na educação e formação teológica. Na vanguarda dessas esteve a Escola de Religião e Teologia na Universidade de KwaZulu-Natal em Pietermaritzburg. Como uma das poucas instituições que oferecem um programa teológico contextual genuino, Pietermaritzburg ganhou uma reputação como um dos centros de excelência acadêmica, oferecendo teologia ecumênica e contextual na África. A escola é conhecida por sua unidade eclesiástica visível através da formação de um conjunto de instituições teológicas que oferecem educação e formação teológica à Igreja Católica Romana, às igrejas evangelicais, à Igreja Luterana, à Igreja Moravia, à Igreja Congregacional, à Igreja Anglicana e em breve à Igreja Metodista. Num tempo em que muitas instituições ecumênicas estão fechando em favor de outras que são denominacionais, Pietermaritzburg está prosperando novamente como o eixo da unidade visível da Igreja como uma testemunha de Cristo. O fato de que muitas outras igrejas na África do Sul, no continente africano e em outros continentes mandam os seus estudantes para serem parte deste corpo ecumênico de Cristo é promissor para o futuro do ecumenismo em nossa região e fortalece a necessidade urgente de uma teologia ecumênica para guiar as instituições ecumênicas e a igreja da Africa. Adicionalmente, além de estabelecer unidade ecumênica com outras instituições, a escola, desde 2004, incluiu o ensino de outras religiões na escola, mudando o seu nome para o mais inclusivo Escola de Religião e Teologia. É uma afirmação clara e um exemplo de que ecumenismo vai além da "unidade da igreja" para abordar um diálogo e colaboração de muitos credos. Isso é um ângulo muito importante em nosso testemunho como uma Igreja, porque África é o lar de muitas religiões. A nossa identidade como o corpo de Cristo é percebida no contexto de outros credos, um fato com o qual vivemos no dia a dia. 

O Espírito Santo e Ecumenismo

"O Espírito Santo está presente nestas reuniões ecumênicas que você atende?

Há pouco tempo, quando estava me preparando para viajar a uma reunião do Conselho Mundial de Igrejas em Genebra, fui perguntado pela esposa do meu pastor, se o Espírito Santo estava presente em reuniões ecumênicas, pois ela entendia que reuniões ecumênicas eram apenas a respeito do que ela chamava de "sabedoria da cabeça". Quando refleti sobre a pergunta dela, notei que essa maneira de ver é comum a um número significativo de cristãos nas denominações em África que pensam que o Espírito Santo não está presente nas reuniões ecumênicas, e muito menos entre crentes ecumênicos. Claro, isso é uma indicação de que certas denominações sentem que elas tem direitos exclusivos sobre o Espírito Santo! O que falta nesta compreensão, porém, é que é o Espírito Santo (a terceira pessoa da Trindade) que conduz a Igreja, tanto a nível global como a nível local, a ser obediente ao mandamento de Jesus que todos os cristãos/cristãs deveriam ser um/uma.

A manifestação da esposa do pastor, porém, não pode ser entendida fora do seu contexto da natureza carismática da nossa congregação. Neste ponto deveria ser visto que existe um número crescente de igrejas carismáticas indepentes globalizadas na África, ao mesmo tempo que também se deve tomar conhecimento da renovação carismática das igrejas históricas tradicionais. Apesar da teologia conservadora que geralmente é importada com a espiritualidade carismática, deve ser visto que espiritualidade carismática ressoa bem com a traditional espiritualidade africana. Em termos de construção da unidade da Igreja, eu gostaria de argumentar que este fenômeno de fato funcionou a favor do ecumenismo, pois foi através da visão carismática que a minha própria congregação está envolvida em reuniões de oração carismáticas para o bem-estar da África do Sul. 

Assim, para usar mais uma vez a minha própria congregação como um exemplo, em termos de prática ecumênica há uma aceitação ampla de a) uma variedade de tipos diferentes de batismo; b) convite aos crentes de todas as igrejas de participar da Sagrada Comunhão; e c) às vezes o convite a pessoas ordenadas que pertencem a outras denominações de compartilhar o púlpito e pregar a palavra de Deus. Todos esses fatos são alguns dos indicadores da vida ecumênica da minha congregação numa comunidade universitária multi-racial e internacional. Infelizmente, como a pergunta da esposa do meu pastor indica, há pouco ou nenhum reconhecimento que esta prática de unidade da igreja na base em nível local espelha a unidade da igreja que também é praticada a nível global através do movimento ecumênico. Eu não gostaria de postular que a minha experiência em minha congregação é única, pois acontece também em outras partes da África, como evidenciam publicações sobre eclesiologia que vem da África. 

A unidade da Igreja pelo ministério da reconciliação

Na África, a unidade da igreja e tornada mais visível quando igrejas se interligam para questionar assuntos que desumanizam pessoas. P. ex., na África do Sul, a unidade tornou-se visível na luta contra a apartheid. Na África pós-colonial unidade visível da Igreja ainda é necessária na luta contra todas as formas de injustiça econômica, política e social que incluem patriarcado, pobreza, guerra civil e HIV/AIDS. Permanece um truismo que a verdadeira reconciliação nunca pode ser alcançada sem justiça - justiça de gênero, justiça ambiental, justiça econômica etc. Também é verdade que em certos casos a igreja faz conluio com os opressores, como foi o caso em Ruanda e mesmo na África do Sul. A igreja é chamada a não apenas pregar, mas também a lutar em favor dos que sofrem injustiça. 

Em outro nível reconciliação e ecumenismo podem também ser alcançados através de casamentos interconfessionais. Não é necessário olhar mais longe que para o meu próprio caminho espiritual para encontrar unidade visível em fé, vida, testemunho e ação. Por exemplo, apesar do fundo presbiteriano, através de casamentos interconfessionais a Assembléia de Deus, a Igreja dos Adventistas do Sétimo Dia, a Igreja de Cristo, a Igreja Católica Romana, a Igreja Água Viva e a Igreja Anglicana encontraram o seu caminho para dentro da nossa grande família. Casamentos interconfessionais têm sido um assunto doloroso na Igreja devido às nossas doutrinas eclesiásticas diferentes, principalmente entre as Igrejas Católica, Ortodoxa e as protestantes. Mas é a realidade do que acontece na base que chama a Igreja na África a dar atenção ao chamado por ritos de casamento ecumênicos, que deveriam ser um símbolo visível da obediência da Igreja na África ao chamado de Jesus por uma só Igreja. Casamentos ecumênicos deveriam ser um lugar para celebrar o Espírito de irmandade e unidade cristã. 

Desigualdade de gênero como um grande desafio da unidade da Igreja

Existen vários desafios que permanecem uma ameaça à unidade da igreja. Do meu prèoprio contexto pessoal, considerando as minhas crenças, eu iria argumentar que gênero, entre outros, ainde é uma das áreas nas quais muito trabalho é necessário. Um caso desses é a minha própria experiência do debate em torno da ordenação de mulheres na Igreja Anglicana de Malawi. No momento em que a questão era para ser colocada na agenda do sínodo da Igreja, desaprovação foi manifestada da ala dos missionários, argumentando que tal moção ameaçaria a unidade existente com a Igreja Católica Romana. Estava claro que certos missionários estavam dispostos a sacrificar a igualdade de gênero na igreja no altar do que eles chamavam de "unidade da Igreja". Isso é uma indicação da tensão existente entre o que é bom no nível maior e o que é bom no nível mais baixo. No nível maior poderia-se argumentar que as igrejas vivem uma unidade nos sacramentos do batismo e da Santa Ceia, permitindo que afirmemos que somos todos parte do grande Corpo de Cristo. Mas ao mesmo tempo decidimos ignorar que o mesmo sacramento que une a Igreja no nível maior também une homens e mulheres, pretos e brancos, missionários locais etc. no nível mais baixo. Infelizmente, o foco é colocado simplesmente no nível maior em detrimento do nível mais baixo. 

Além disso, várias publicações do Círculo de Teólogas Africanas Preocupadas (que é tanto um movimento ecumênico quanto multi-religioso) ilustram os desafios de unidade relacionados ao gênero. Por exemplo, num encontro continental do Círculo muitas mulheres expressaram a frustração de que a diferença de gênero é usada "para separar as mulheres dos homens e designar a seus dons um valor inferior". Isso pode ser visto na recusa de ordenar mulheres de muitas igrejas; na incapacidade de lidar com violência relacionada a gênero na igreja; e com as dificuldades que as que já foram ordenadas experimentam na igreja ao executar o seu ministério, até o ponto de que não mais encontram a energia de lidar com questões maiores como HIV/AIDS e pobreza. Tal situação certamente não ajuda a unidade que a Igreja almeja, visto que é evidente que questões maiores como a pobreza, HIV e AIDS etc. estão ligadas de alguma maneira ou outra à questão da desigualdade de gênero. 

Conclusão

O tópico da unidade da igreja é amplo demais para fazer-lhe justiça nesta apresentação breve.Não obstante, tentei concentrar-me no meu próprio contexto para enquadrar a discussão. Eu destaquei algumas das possibilidades que existem para serem exploradas mais, como o potencial de unidade que existe em todas as igrejas protestantes na África, manifestado em áreas como a educação teológica, casamentos interconfessionais e a renovação carismática das igrejas na África, no diálogo inter-religioso e em áreas da reconciliação. Apesar do potencial que existe para as áreas mencionadas, também destaquei um dos maiores desafios (entre outros) para a unidade, em termos, a desigualdade de gênero. Como vale para a reconciliação, também a unidade não pode ser alcançada sem que haja justiça para todos. Como o profeta Miquéias nos advertiu, tudo o que precisamos é fazer justiça, amar a bondade e caminhar humildemente com o nosso Deus.