Do legado de Chernobyl às pedras do tsunami no Japão: lições que salvam vidas estão na agenda da conferência das igrejas pela paz
O desastre de Chernobyl, ocorrido há 25 anos, foi uma tragédia humana e ambiental severa e suas consequências continuarão durante séculos. Seu aniversário, nesta semana, torna-se especialmente oportuno, dada a atual situação de emergência no Japão, que ainda ecoa algumas das duras lições de Chernobyl. Aprender a honrar os que sofrem com o passado pode salvar vidas no futuro.
As lições destas duas tragédias vão estar presentes na agenda de uma contundente conferência que acontecerá, no próximo mês, em Kingston, Jamaica, na qual representantes de igrejas e organizações parceiras vão debater uma visão ampla de paz. O tema da conferência é "paz justa" e, através de tópicos como "paz com a terra: é assim que a vida é sustentada", os participantes irão apontar verdades que Chernobyl e Fukushima negam.
O teólogo alemão Jürgen Moltmann, refletindo sobre os preparativos para a conferência de Kingston, convidou os cristãos a cuidar da criação como um dom de Deus. "Meu sonho é que, um dia, as religiões do mundo fluam como água doce (...) trazendo a água da vida desde a eternidade do tempo", escreveu Moltmann na edição de março de 2011 de Ecumenical Review, o mais conhecido periódico do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).
As catástrofes nucleares transformaram a água e o vento em forças destrutivas. A contaminação da fusão nuclear de 1986, em Chernobyl, atingiu uma área do tamanho da Suíça, impedindo qualquer vida normal na região por, pelo menos, 300 anos, de acordo com estudos científicos e a legislação da Ucrânia. Quais são as lições essenciais por detrás de uma previsão tão grave?
Por ser uma comunhão de igrejas, com membros em mais de 100 países, o CMI é afetado por desastres em diferentes locais, como aconteceu com suas igrejas-membro na região de Chernobyl e, hoje, após o terremoto e o tsunami que causaram o desastre nuclear no Japão.
"As evacuações de emergência de dezenas de milhares de pessoas, as medidas desesperadas para controlar materiais perigosos, a propagação de radiações nocivas, e a perspectiva de que alguns sobreviventes nunca serão capazes de voltarem para casa são, para nós, ecos de Chernobyl quando observamos o que está acontecendo no Japão ", disse o secretário geral do CMI, Rev. Dr. Olav Fykse Tveit. "Nossos corações estão com as pessoas que ainda sofrem as consequências do acidente na Ucrânia, Bielorrússia e Rússia, assim como com as pessoas no Japão".
"As igrejas têm um sólido histórico de ajuda em situações de emergência. Constatamos que este é um ministério que é exercido paralelamente à prevenção de desastres e projetos de desenvolvimento a longo prazo", disse Tveit. “No entanto, quando a duração dos danos é tão grande, como é o caso na área de Chernobyl, e quando um país altamente desenvolvido enfrenta uma devastação em escala tão contundente, como no Japão, é necessário repensar esta dinâmica. Estes eventos desafiam nossas orações e nosso planejamento, nos fazendo questionar o que as sociedades e as igrejas devem fazer de forma diferente para manter as pessoas seguras e proteger o meio ambiente".
A Convocatória Ecumênica Internacional pela Paz (CEIP), que reunirá mais de 1000 participantes, em Kingston, Jamaica, no próximo mês, vai focar temas como este. Quais são as principais ameaças à paz ambiental, econômica, política e militar? Qual é o nosso papel, como cidadãos e consumidores, na criação de condições relacionadas com desastres complexos como estes?
A conferência apóia-se no longo histórico do CMI em compromissos ecumênicos que apontam à integridade da criação de Deus com justiça e paz, dando prioridade à sustentabilidade das comunidades e das economias. O objetivo de Kingston é desafiar as igrejas locais e globais a aprofundar a sua compreensão de paz e alargar a sua colaboração nos processos de construção de paz.
Os desafios atuais não são novos. Encostas ao longo do litoral Nordeste do Japão têm centenas de marcos de pedras antigas, que servem como alertas de tsunami às pessoas para que possam refugiar-se a tempo. O problema é que, atualmente, esses marcos de níveis de água têm sido muitas vezes ignorados no Japão. Comunidades inteiras construídas em condomínios costeiros, logo abaixo destas pedras ancestrais, foram exterminadas pelo tsunami de 11 de março de 2011. Quase 30.000 morreram ou estão desaparecidas e mais de 130 mil estão desabrigadas. Os cinco reatores nucleares Fukushima foram construídos ao nível do mar, logo atrás de uma parede que foi facilmente destruída pelo tsunami.
"Estamos todos familiarizados com o que aconteceu no Japão. Sabemos que ações a curto prazo foram tomadas sem as medidas adequadas para proteger as gerações futuras das conseqüências ", disse Guillermo Kerber, responsável pelo programa de mudanças climáticas do CMI. "Mesmo nos chamados países desenvolvidos, onde há muito controle local, as ações das pessoas podem tornar a si mesmas e às outras vulneráveis. O desenvolvimento desenfreado, os altos níveis de consumo e os estilos de vida não-sustentáveis desempenham um papel importante", disse Kerber. "É necessária uma grande mudança de paradigma."
O documento básico da Convocatória de Kingston, "Um Clamor Ecumênico pela Paz Justa", fala das grandes questões ligadas ao "estilo de vida de extinção em massa" e das "armas de destruição em massa". Ambos são "violentos abusos da energia inerente à Criação", diz o documento, e ambos estão se proliferando. As centrais nucleares, que exigem tecnologia perigosa e são militarmente sensíveis, além de precisarem de combustíveis para gerar eletricidade, estão envolvidas em ambas as tendências, observa Jonathan Frerichs, que trabalha em questões de paz e desarmamento para o CMI.
"Será que nossos descendentes estarão livres da contaminação radioativa que a Ucrânia e seus vizinhos sofreram? Ou será que a construção de várias novas usinas vai continuar, independentemente das crescentes ameaças em longo prazo ao meio ambiente por conta do carvão e de combustíveis nucleares e tecnologias necessárias para a disseminação de armas nucleares para mais e mais lugares? "Frerichs perguntou.
"Há um enorme sarcófago de concreto que cobre os destroços radioativos do reator nuclear de Chernobyl. Será que entendemos este aviso? Será que isto poderá alertar nossos filhos acerca dos perigos do futuro, como as pedras de tsunami no Japão? ", indagou.
A relevância de Chernobyl e Fukushima para a Convocatória pela Paz vai além das questões ambientais e nucleares.
"Paz no Mercado: para que todos possam viver com dignidade" é uma das outras áreas temáticas da conferência. Um estudo das Nações Unidas sobre o legado de Chernobyl revelou que o desastre teve um papel fundamental no colapso da União Soviética e que, 20 anos depois, entre 100.000 e 200.000 pessoas ainda têm problemas de isolamento, saúde e pobreza causados pelo desastre. O estudo observa, também, que milhões de pessoas ainda se consideram vítimas, mas que, ao mesmo tempo, não têm acesso a informações completas e precisas sobre os efeitos da catástrofe. Os custos reais, em termos de vidas perdidas, necessidades de saúde, reabilitação ambiental e recuperação econômica, não são conhecidos e extremamente difíceis de determinar.
As primeiras estimativas dos custos e perigos decorrentes do desastre triplo do Japão já são tão altos, que já se questiona as perspectivas para o gerenciamento desta enorme dívida de soberania, as economias e padrões de vida que dependem da energia nuclear. Basta o mundo lembrar-se de Chernobyl para saber que a paz com a terra já foi comprometida.
Website da Convocação Ecumênica Internacional da Paz:
www.overcomingviolence.org
CMI programa de alterações climáticas
Ecumenical Review: Assinaturas e encomendas

